domingo, 21 de abril de 2013

250º Aniversário da Torre dos Clérigos, Porto – A mais emblemática obra de Nicolau Nasoni, artista recomendado pela Ordem de Malta.

Filho de Giusepe Francesco Nasoni e sua mulher Margaretta Rossi, Nicolau Nasoni nasceu em 02 de Junho de 1691 na Toscana, Itália.
Ainda muito jovem Nasoni vai trabalhar numa oficina de Siena, onde aprende pintura, decoração e arquitectura. Teve como mestres Nasini, Franchim e Vicenzo Ferrati.
Com apenas 21 anos é o responsável pelo catafalco para a Catedral de Siena, por ocasião das cerimónias fúnebres de Fernando de Médicis. Trabalho que foi muito apreciado.
Empolgado, Nasoni procura inserir-se melhor no meio artístico. Inscreve-se na academia de artistas – Instituto dei Rozzi, onde é alcunhado “Il Piangollegio”, epiteto evidente pelos retratos que dele chegaram aos nossos dias. A veia artística do jovem Nasoni depressa se revela e, em 1715, é o escolhido pelo Instituto para fazer os trabalhos de decoração para a recepção ao novo arcebispo de Siena, sobrinho do Papa Alexandre VII.
 
Anos mais tarde, ruma à ilha de Malta, onde trabalha o Carro de Marte que desfila no Cortejo do novo Grão-Mestre da Ordem de Malta. De cerimónia em cerimónia, Nasoni causa enorme sucesso quer pela riqueza das decorações quer pela técnica das construções. Uma arte efémera mas que não passa despercebida aos responsáveis da época. Tanto assim foi que Francisco Picolomini o recomendou ao português, culto e faustoso, Dom António Manuel de Vilhena, que então se perfilava para assumir o grão-mestrado da Ordem de Malta.
Uma vez eleito Grão-Mestre, em 1723, Dom António Manuel de Vilhena desafia Nasoni a executar a pintura decorativa dos tectos e corredores do Palácio de Malta. Esta era a verdadeira arte de Nasoni. Utilizando a têmpera e a tela, dominava uma técnica que criou através da perspectiva a ilusão de formas e espaços – pintura ilusionista – fazendo surgir jarrões, flores, panos e colunas, enfim, espaços, cantos e recantos onde eles não existem, nos corredores e tectos do palácio de La Valleta.
 
Enquanto executava este trabalho, muito apreciado, Nasoni estreita relações com o também português Frei Roque Távora e Noronha, cavaleiro de Malta, que o recomendou a seu irmão então deão da Sé do Porto, Dom Jerónimo Távora e Noronha, necessitado de artistas para desenvolver o restauro e melhoramento da Sé do Porto.
Não é conhecida a data exacta em que Nicolau Nasoni chegou à cidade invicta. Sabe-se, no entanto, que em Novembro de 1725 iniciou um trabalho de pinturas na Sé do Porto. Encontrava-se então este edifício de matriz românica em profundas remodelações e foi um dos primeiros edifícios da cidade a sofrer diversas adaptações ao estilo barroco. Segundo um documento redigido entre 1717 e 1741 do Cabido da Sé do Porto, em que alude às grandes obras que se mandaram executar, encontra-se a seguinte nota:
«Para se fazerem com perfeição e acerto todas as obras, e se evitar o perigo de se desmancharem e fazerem 2ª vez por falta de preverem os erros, vieram não só de Lisboa, mas de outros reynos, arquitectos e mestres peritos nas artes a que erão respectivas as obras. Veyo Niculau Nazoni arquitecto, e pintor florentino exercitado em Roma, donde foi chamado a Malta para pintar o pallacio do Grão M(estre)…».

Finda a sua primeira obra nesta cidade, que tanto lhe agradou, Nasoni deixou escrito, em forma de reconhecimento a quem o recomendou, o seguinte: “NICCOLO NASONI FIORENTINO NATURALE DELLA TERRA DI S. GIOVANI VAL DARNO D. SOPRA DIE A DI PINGERE IN QUESTA SE IL 9RE DE 1725 E ORA 1731 E VENE PER MEZZO VENE DEL S.R. DECANO GIROLAMO TAVORA E NOROGNA”.

É durante a execução dos trabalhos na Sé que Nasoni conhece a sua primeira mulher, com quem casou em 1729. Casamento efémero como os seus primeiros trabalhos, no entanto. Natural da Florência, Isabel Castriotto Ricardi, não resiste às complicações com o parto do seu primeiro filho – José Nasoni, que lhe sobreviveu em 25 de Junho de 1730. Porém, Nicolau não permaneceu viúvo por muito tempo. As encomendas sucediam-se e estava agora com um filho nos braços.
O próprio deão Dom Jerónimo de Távora e Noronha promoveu as segundas núpcias de Nasoni com a empregada de companhia de Sua mãe Dona Micaela, a jovem Antónia Mascarenhas Malafaia, que veio de Santo Tirso e teve ascendentes em Arouca.
Sucedeu-se uma carreira de sucesso na região norte do país, com trabalhos notáveis, de que é ex-libris a Torre dos Clérigos de que hoje mesmo passa o seu 250º Aniversário.
 
Retrato de Nicolau Nasoni
Pintura a Óleo, patente na entrada da Torre dos Clérigos
O último e discreto suspiro de Nasoni soou no dia 30 de Agosto de 1773. A Irmandade dos Clérigos Pobres, que anos antes o tinha admitido como membro, encarregou-se de lhe dar sepultura, como era usual fazer com os irmãos:
«… faleceu da Vida pres.te com todos os Sacram.tos o N. Irmão D. Nicolão Nasoni morador na Viella do Paj Ambrosio Freg.ª de Stº Ildefº e foi sepultado nesta igreja sendo asestido p.la Irmandade como pobre e se lhe fiserão os três ofícios como também o da sepultura.».

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Entrega de cópia da Bula fundadora da Ordem de Malta à Assembleia Portuguesa

No dia 3 de Abril e após a celebração da Santa Missa, S.E. o Sr. Dr. Raymond Bondin, Encarregado de Negócios da República de Malta em Portugal, entregou formalmente a S.E. o Sr. Presidente da Assembleia Portuguesa uma cópia da Bula Piae Postulatio Voluntatis, documento fundador da Ordem de Malta outorgado e assinado pelo Santo Padre Pascoal II em Fevereiro de 1113, propriedade do Estado de Malta, encontrando-se depositado na Biblioteca Municipal da cidade de Valetta.
A entrega da cópia da Bula, documento fundador, constitui uma assinalável referência para a Ordem de Malta, esta entrega assume um relevo particular, por nos encontrarmos precisamente no ano em que se celebram os 900 anos da fundação da Ordem de São João do Hospital.
S.E. o Sr. Conde de Albuquerque, S.E. o Sr. Dr. Raymond Bondin e o Reverendo Cónego Dr. Manuel Lourenço, deslocaram-se junto do tripé no qual se encontra assente a Bula devidamente encaixilhada, tendo procedido à cerimónia de inauguração da mesma.
A Assembleia dos Cavaleiros Portugueses passou deste modo a ser uma das raras Assembleias /Associações Nacionais que detêm no seu espólio uma cópia da Bula original, tendo ficado reforçadas as boas relações entre Malta e a Ordem, e em particular entre a Missão Diplomática de Malta em Portugal e a Assembleia Portuguesa.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

CARTAS DE COUTO, FORAL E PRIVILÉGIOS DE D. AFONSO HENRIQUES À ORDEM DE MALTA

A data de entrada da Ordem de Malta em Portugal anda ainda relativamente controvertida na nossa historiografia. No entanto, está documentalmente comprovado que a então denominada Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, entrou em Portugal pouco depois de 15 de Fevereiro de 1113, data da Bula Piae Postulatio Voluntatis de Pascoal II, de que se assinalaram recentemente os 900 Anos.

 
Na carta, tirada do latim, que era del-rei D. Afonso Henriques, se continha que fizera couto a dom Reimondo, procurador dos Santos pobres da cidade de Jerusalém, e a dom Aires, prior de Portugal e de Galiza, de todas as cousas até aquele dia tivessem adquirido e possuissem, e das que por diante, por concessão ou conselho dos bons barões, adquirissem. E coutou e confirmou todas as possessões em tal maneira que ninguém seria ousado de as romper, ou, com seus homens, prender alguns deles, nem levar algo de coima. E outrossim absolveu e livrou os homens que morassem em suas herdades de todo o negócio serviçal e tributo. E se acontecesse em algumas herdades, cometerem alguns destes três malefícios: homicídio, furto ou rapina de mulheres, que era dito rousso, e contra algun pudesse legitimamente ser provado, o tal comporia segundo a sua possibilidade, em tal maneira que a casa, que era da Ordem, nunca se perdesse, e das cousas que, por composição pagasse, se desse metade a el-rei, e a outra metade ficasse nesta herança. E seus homens, do que comprassem, não pagassem portagem nem peagem. E quem quebrantasse pagasse 500 soldos da moeda aprovada e corrente, metade para a casa e pobres dela. E quis mais e adeo que nunca os freires do Hospital fossem penhorados, salvo se as razões da penhora fossem primeiramente proferidas e alegadas em sua presença. E mais quis e concedeu que a causa dos freires do Hospital, por informação e conhecimento dos bons barões, sempre fosse determinada. A qual carta o rei dera à honra de Deus e de S. João Baptista, por esmola à dita Ordem, em remimento de seus pecados, ao terceiro dia das kalendas de Abril de 1161 [AD 1123], outorgada com a rainha e com seus filhos e por alguns prelados do reino. ANTT - Chancelaria de D. Manuel I, liv. 40, fl. 59.

30 de Março da Era de 1178, Ano de 1140, será, no entanto, a data correcta, como esclarece José Anastácio de Figueiredo, a página 100 e seguintes, da Parte I, da sua Nova História da Militar Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores Dela em Portugal, e como confirma uma segunda Carta, cujo teor se pode sumariar da forma seguinte:

Uma carta de D. Sancho I, tirada do latim, na qual outorgava a Rodrigo Pais, Prior da Ordem do Hospital, confirmando uma carta de D. Afonso, seu pai, [[o foro feito a dom Reimondo e a seus irmãos, que eram na terra, por remissão de seus pecados, nas era de 1178 [AD 1140], terceiro dia das kalendas de Abril. Concedeu ainda tudo o que possuissem ou viessem a possuir, e quitou e livrou os seus homens de toda a obra serviçal. E se, nas suas herdades, algum cometesse homicídio, furto ou rousso, comporia segundo sua possibilidade para a Ordem. E do que por composição pagasse, se desse a el-rei a metade, e a outra ficasse nesta herança. E do que comprassem ou vendessem não pagariam nem levada nem portagem. E que nunca aos irmãos do Hospital fossem feitas penhoras nem prendas, salvo se fosse em causa alegada perante o Prior e freires.]] E quem esta sua esmola quebrantasse, pagasse com nome de pena, 500 soldos de moeda aprovada, e [[[com dee cabo]]] restituisse e tornasse a seu dono, sendo metade para a casa de Deus, e pobres dela, e fosse maldito e excomungado e apartado do consórcio dos barões santos, perpetuamente. E outorgara esta carta com consentimento de seus cónegos, dom João, Arcebispo de Braga, dom Aires, Prior que então era, ao qual, e a seus sucessores dera licença que, com justa causa, excomungassem os que a algum freire fizesse injúria. E fosse excomungado e não fosse recebido na igreja até que a ele e a si satisfizesse. As quais cousas concedeu perpetuamente e outorgou na era de 1220 [AD 1182], aos 5 de Julho, com sua mulher e seus filhos e filhas, tendo por testemunhas muitos prelados do reino e outros senhores e oficiais maiores de sua casa, e da rainha, a qual dava por alma de seu pai e remissão de seus pecados, à honra de Deus e de S. João Baptista. ANTT - Chancelaria de D. Manuel I, liv. 40, fl. 59.

Anastácio de Figueiredo, no entanto, esclarece que as Cartas outorgadas à Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, datarão de 1133 e 1140, e o traslado da renovação desta segunda terá sido feito por outra nova Carta do mês de Abril de 1157. Só um ano depois desta, D. Afonso Henriques concedeu expedir uma Carta idêntica a favor da Ordem dos Templários.

- ANTT - Chancelaria de D. Manuel I, liv. 40, fl. 59 (A dom Vasco de Ataíde, Prior do Hospital, do Conselho del-rei D. João II, aprovação e confirmação de certas cartas de doações, privilégios, liberdades e graças dadas e outorgadas à Ordem e Priorado, Comendadores e freires).
- FIGUEIREDO, José Anastácio de, Nova História da Militar Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores Dela em Portugal..., Oficina de Simão Thaddeo Ferreira, Lisboa,1800, Parte I, pág.110 e ss.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Visita à antiga Comenda de Arada




Arada é atualmente uma freguesia pertencente ao concelho de Ovar e distrito de Aveiro, com 15,34 km² de área e 3.318 habitantes (2011).
Documentos do princípio do século XIII fazem crer que Arada já existia como terra povoada, muito antes do seu povoamento oficial no reinado d´El-Rei Afonso II. As primeiras referências a este povoamento encontram-se relacionadas com a doação da "Igreja de Samartinho de Erada", à Ordem do Hospital por Dona Tareiga Rodrigues, em 1220. Foi anexa à Comenda de Rio Meão e extinta em 1834.

domingo, 31 de março de 2013

Visita à antiga Comenda de Maceda



 
Maceda é atualmente uma freguesia e vila pertencente ao concelho de Ovar e distrito de Aveiro, com 15,34 km² de área e 3.521 habitantes (2011). Foi elevada a vila a 13 de Maio de 1999.
A presença da Ordem do Hospital nesta freguesia está documentada desde o século XIII. Existem ainda nos seus limites marcos de granito, datados de 1629, que delimitam a freguesia a norte e a leste. Foi anexa à Comenda de Rio Meão, situação que ainda se verificava em 1785. Foi extinta em 1834.

sábado, 30 de março de 2013

Visita à antiga Comenda de Mozelos

 

 
Mozelos é atualmente uma freguesia pertencente ao concelho de Santa Maria da Feira e distrito de Aveiro, com 5,04 km² de área e 7.142 habitantes (2011).
Contemporânea das demais Comendas que a Ordem deteve nas imediações, Mozelos tinha anexa a maior parte da freguesia de Santa Maria de Meladas, extinta no final do século XV, devido a uma peste que dizimou quase toda a população. Ainda hoje existe aí uma pequena Capela comemorativa da antiga Igreja Paroquial que aí existiu até ao século XII, bem como alguns marcos nos limites da Freguesia, com a “Cruz de Malta”. Foi extinta em 1834.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Visita à antiga Comenda de Rio Meão


 


Rio Meão é atualmente uma freguesia pertencente ao concelho de Santa Maria da Feira e distrito de Aveiro, com 6,47 km² de área e 4.931 habitantes (2011).
Foi a Comenda de Rio Meão instituida após uma doação de 1218, em que Fernão Vasques doou à Ordem do Hospital os bens que aí possuía. Também da Demarcação efetuada em 1630, subsistem ainda muitos marcos com a data de 1629 e a cruz oitavada da Ordem. Foi esta Comenda extinta em 1834.

domingo, 10 de março de 2013

520 Anos do Encontro de Colombo e D. João II


Terminou hoje, em Vale do Paraíso, no concelho de Azambuja, a Recriação Histórica do encontro ali realizado há 520 anos entre El-Rei D. João II e o navegador Cristóvão Colombo.
 
Um evento que se caracterizou pela apresentação de danças e cantares medievais, a realização de cortejos históricos, feira medieval, recriação da entrada real, uma conferência sobre o acontecimento, e visitas guiadas à Casa Colombo, ao Centro de Interpretação e à Igreja de Nossa Senhora do Paraíso.
Foi uma iniciativa da Junta de Freguesia de Vale do Paraíso, com o apoio do Município de Azambuja e a parceria de um vasto conjunto de entidades, e culminou com a entronização do estandarte de Cristóvão Colombo no Centro de Interpretação.

Correspondendo a um convite dirigido pelas autoridades locais, S.E. o Senhor Conde de Albuquerque e o Ex.º Senhor Dr. João Pedro de Campos Henriques, respetivamente presidente e secretário do Conselho da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, participaram nestas festividades comemorativas e assistiram à celebração da Santa Missa, realizada na manhã deste domingo.

A relevância desta presença traduz-se no facto desta ser uma região historicamente importante para a Ordem de Malta, que aí deteve uma das suas mais ricas e importantes Comendas: a Comenda de Pontével, que visitamos recentemente.
Acresce que, durante a sua deslocação a Vale do Paraíso, Cristóvão Colombo terá sido alojado pelo Prior do Crato D. Diogo Fernandes de Almeida, na Casa dos Comendadores da referida Comenda da Ordem Militar do Hospital de S. João de Jerusalém. O então Prior do Crato era filho de D. Lopo de Almeida, 1º. Conde de Abrantes, amigo e parceiro de negócios de Lorenzo de Berardi, pai do banqueiro florentino de Colombo em Sevilha.
Para além do mais, D. Diogo Fernandes de Almeida era um Nobre da total confiança d’El-Rei, seu Monteiro-Mor, Alcaide-Mor de Torres Novas, aio do Governador das Ordens de Santiago e de Avis, membro do Conselho Real. Colombo sabia da importância deste Nobre.

Andam ainda algo controvertidas na historiografia as circunstâncias deste encontro de Cristóvão Colombo com El-Rei D. João II, em Vale do Paraíso, povoação doada em 1272 à Ordem de Santiago de Espada, passada posteriormente, em 1360, ao Convento das Comendadeiras de Santos-o-Novo, em Lisboa.
As teses que o sustentam e procuram fundamentar, cada vez com mais consistência, é certo, socorrem-se do Diário de Bordo do próprio Cristóvão Colombo e de uma missiva de 04 de Março de 1493, data em que terá chegado a Lisboa. O rei neste dia encontrava-se em Rio Maior, mas no dia 5 já estava em Vale do Paraíso. Estanciava por estas paragens para, alegadamente, escapar à Peste que grassava por Lisboa. Colombo só recebeu a resposta d’El-Rei 4 dias depois, quando este lhe pediu para o visitar.
"Sábado 9 de marzo- Hoy partió de Sacanben (Sacavém) para ir adonde el Rey estaba, que era el valle del Paraíso, nueve léguas de Lisboa: porque llovió no pude llegar la noche. El Rey (em Vale do Paraíso) le mandó recibir a los pincipales de su casa muy honradamente, y el Rey también les recibió con mucha honra y le hizo mucha favor y mandó sentar y habló muy bien, ofreciéndole que mandaría hacer todo lo que a los Reys de Castilla y a su servicio complise complidamente y más que por cosa suya; ". Cristóvão Colombo, Diário de Bordo.

Não sendo ainda muito pacífico se o encontro com D. João II, se deu na noite do dia 9 de março ou na manhã de domingo, dia 10, há precisamente 520 anos, é relativamente mais consensual que a jornada terá terminado com uma missa, onde ambos terão rezado, depois d'El-Rei ordenar que se desse a Colombo tudo o que ele precisasse.
"Tras haber permanecido el domingo y el lunes hasta después de misa en aquel lugar, el Almirante se despidió del rey, quien le demostró mucho afecto y le hizo muchos ofrecimientos". Hernando Colón, História del Almirante, p.178.

No dia seguinte à missa com D. João II, Colombo ter-se-á dirigido diretamente para a Azambuja, que fica a cerca de 4 km pela serra, com o objetivo de visitar a Rainha D. Leonor de Lencastre, que estava no Convento de Santo António. Daí rumou ao Sul e daqui a Espanha, terminando assim esta sua curta estadia em Portugal, após o regresso da viagem e descoberta da América.

sábado, 9 de março de 2013

ORDEM DE MALTA REGRESSA A VILA COVA À COELHEIRA

No passado mês de Fevereiro foi formalmente constituído um Núcleo do CVOM – Corpo de Voluntários da Ordem de Malta, em Vila Cova à Coelheira, atual freguesia pertencente ao concelho de Vila Nova de Paiva e distrito de Viseu. Este Núcleo, de acordo, com os seus impulsionadores e membros fundadores «…permitirá “o acordar” da ação hospitalária e presença da Ordem naquela antiga Comenda, com vista ao desenvolvimento das obras assistências hospitalárias a que sempre se votou e que desde sempre existiram, também, naquelas terras: a assistência aos pobres e necessitados e em particular aos doentes e peregrinos».
Recorde-se que Vila Cova à Coelheira - «Cova» porque se situa num vale entre montanhas e «Coelheira», porque nesse vale abundavam coelhos - foi uma das mais antigas Comendas da Ordem de Malta no nosso país.
O povoamento dessa região remonta à época pré-romana, período em que os Lusitanos e os Celtiberos habitavam a zona beiraltina. Vila Cova à Coelheira foi, nos primórdios da nacionalidade, uma “honra“ de Soeiro Viegas, filho de Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques. Pouco depois do falecimento do nosso primeiro rei, Vila Cova à Coelheira foi doada à Ordem do Hospital que, ainda em 1185, aí estabeleceu uma das suas mais importantes comendas da Beira Alta.
Aumentou esta Comenda de tal forma a sua importância e benefícios que, em pouco tempo, já outras Comendas como as de Fontelo e Alvelos lhe estavam anexas e, em 1553, Frei Claude de La Sengle, 48.º Grão-Mestre da Ordem, conferiu-lhe mesmo a categoria de Comenda Magistral do Priorado de Portugal, ou seja, uma comenda diretamente vinculada ao Grão-Prior da Ordem, rivalizando nessa região com a Comenda de Sernancelhe, que detinha a mesma categoria.
Recebeu foral manuelino em 21 de Julho de 1514. Foi vila e sede de concelho desde o século XIII, ou, XIV, até 1836. Nesta data foi anexado a Fráguas para passar ao de Castro Daire a 7 de Setembro de 1895. Restaurado o concelho de Fráguas, com sede em Vila Nova de Paiva, por Decreto de 13 de Janeiro de 1898, as freguesias que constituíam o concelho de Vila Cova à Coelheira (Touro e Vila Cova à Coelheira) foram-lhe anexadas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Cerimónia Comemorativa dos 900 Anos da Ordem de Malta em Ponta Delgada

Igreja Matriz de Ponta Delgada
Palácio José do Canto
A próxima Cerimónia de Investidura de Novos Membros da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, Comemorativa dos 900 Anos da Ordem, terá lugar no dia 8 de Junho, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, nos Açores.

quinta-feira, 7 de março de 2013

D. Luís Mendes de Vasconcelos (1541-1623)


Passam hoje 390 anos sobre o falecimento de Frei D. Luís Mendes de Vasconcelos, 55.º Grão-Mestre da Soberana e Militar Hospitalária Ordem de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (1622-1623), segundo dos quatro Grão-Mestres Portugueses.
Natural de Évora, onde terá nascido por volta de 1541, era filho de Francisco Mendes de Vasconcelos e sua mulher D. Isabel Pais de Oliveira. Neto paterno de Cristóvão Nunes da Costa e Dona Catarina Mendes de Vasconcelos. Neto materno de Paio Rodrigues de Vilalobos e Dona Isabel de Oliveira, todos moradores na cidade de Évora.
Desde muito cedo que a Ordem o pretendeu entre os seus e para isso fez as devidas provanças, chegando a Malta em 1 de Abril de 1572. Antes de rumar a Malta serviu algum tempo junto à pessoa do Senhor D. João de Áustria, Generalíssimo do Mar e filho natural do Imperador Carlos V. Foi Capitão da Galé Esperança por dois anos. Desempenhou as funções de Auditor, Procurador de Encarcerados e Comissário de Pazes. Foi ainda Recebedor da Religião em Portugal, entre 1589 e 1598, Embaixador da Religião em Roma e Conservador Conventual, de que passou a General de Galés, em 1613. Foi ainda Bailio de Aquila, por um Breve particular de Sua Santidade o Papa Paulo V, e de Acre. Por seu primeiro cabimento teve a Comenda de Elvas e Montoito, que deixou melhorando-a com a Comenda de Vera Cruz. Além destas teve de graça as Comendas de Rossas, Frossos, Vila Cova e Algozo, que lhe concedeu o Grão-Mestre Fra' Alof de Wignacourt (1601-1622).
Eis que por fim atingiu o Grão-Mestrado da Ordem, em 17 de Setembro de 1622, correspondendo à última vontade do seu antecessor que pediu «Que em nenhuma outra peffoa votaffem para Grão Meftre seu suceffor, mais que em Fr. Luiz Mendes de Vafconcellos: porque, naquelle trance lhes affirmava que efta era a peffoa, q, pofta naquella Dignidade, feria a mais importante para o serviço de Deos, e bem da Religião». Dignidade de que gozou por apenas um ano e, por isso, enquanto tal, não é muito significativa a sua obra. No entanto, no seu breve governo, demonstrou a grandeza do seu ânimo, a generosidade do seu pensamento e o zelo pela justiça. Faleceu em 07 de Março de 1623 e foi sepultado na cripta da Igreja de S. João, em La Valleta, Malta. Aí se pode ler: D.O.M. Frater Ludovicus Mendes de Vasconcellos. Qui per singulos pacis, bellique gradus ad summum Magisteris culmen virtute duce, conscenderat; In Septimo vix Principatus Mense, Fato bonis infausto Praripitur. Cunstis optatus, nulla non lacrimatus, Hic conditur. Nono Martii M.D.C.XX.III.

Fonte: LIMA, Fr. António Pereira de, Vida, e Acção de Sua Alteza Sereníssima Fr. Luís Mendes de Vasconcellos, Grão Mestre da Sagrada Religião de Malta, Lisboa, 1731.

segunda-feira, 4 de março de 2013

ANTIGAS ORDENS MILITARES PORTUGUESAS

Correspondendo a alguns esclarecimentos que nos têm sido solicitados ultimamente, relativamente às denominadas Antigas Ordens Militares e Ordens Honoríficas Portuguesas, transcrevemos excerto sobre o tema da Página Oficial do Grão-Mestre das Ordens Honoríficas Portuguesas:
 
As Antigas Ordens Militares são o testemunho da tradição secular de que são herdeiras as Ordens Honoríficas Portuguesas. Muito embora conservem a antiga nomenclatura de ‘Ordem Militar’, trata-se hoje em dia de uma designação que pretende destacar o carácter histórico que lhes está associado.
As ordens monástico-militares que lhes deram origem foram criadas na Idade Média, com a aprovação do Papa e com a protecção régia, visando tomar parte activa na Reconquista, à qual deram um contributo decisivo.
As ordens monástico-militares criadas em Portugal (Ordens Militares Nosso Senhor Jesus Cristo, de São Bento de Avis e de Sant’Iago da Espada) e nos restantes reinos da Península Ibérica (Ordens Militares de Santiago, Calatrava, Montesa e Alcântara) inspiraram-se, por seu turno, nas ordens militares criadas no Reino de Jerusalém no século XI para defesa da Terra Santa – a Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém e a Ordem dos Templários.
Com o fim da Reconquista no território português, as ordens militares sofreram igualmente uma evolução que passou pelo relaxamento dos primitivos votos de pobreza e castidade e pela perda da sua autonomia no século XVI, com a entrega da sua administração à Coroa.
Este processo conduziu também à sua transformação em ordens que visavam recompensar serviços ou a fidelidade ao Soberano.
A Rainha D. Maria I quis restaurar o prestígio das Ordens, considerando no preâmbulo da Carta de Lei de 1789 que a “não auxiliar com Providencias próprias e accommodadas a tanta desordem, e relaxação, se chegaria por fim ao ponto extremo dellas não serem nem consideradas, nem estimadas, como Insígnias de honra e dignidade” (MELO, Olímpio de; Ordens Militares Portuguesas e outras Condecorações, Imprensa Nacional, Lisboa, 1922, p. 31).
Embora a extinção formal das ordens religiosas e a transferência dos seus bens para a Coroa tenha tido lugar apenas no reinado de D. Maria II, a reforma de 1789 conduziu à sua transformação em ordens de mérito assentes no mérito individual, laicas e puramente honoríficas.
Em 1910, logo após a Revolução Republicana, algumas das ordens vigentes sob o deposto regime monárquico foram extintas, mantendo-se apenas a Ordem Militar da Torre e Espada.
Em 1917 foi reformulada e restabelecida a Ordem Militar de Avis. Em 1918, no final da Guerra Mundial, foram restabelecidas a Ordem Militar de Cristo e a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada como Ordens Honoríficas, sendo a função de Grão-Mestre atribuída ao Presidente da República.
Desde 1918 são quatro as Antigas Ordens Militares:
  • Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito;
  • Ordem Militar de Cristo;
  • Ordem Militar de Avis;
  • Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
A cada uma das Antigas Ordens Militares correspondem finalidades e insígnias específicas, consagradas na Lei das Ordens Honoríficas.
Bibliografia:
CHANCELARIA DAS ORDENS HONORÍFICAS PORTUGUESAS; Ordens Honoríficas Portuguesas, Imprensa Nacional, Lisboa, 1968
ESTRELA, Paulo Jorge; Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Tribuna da História, Lisboa, 2008
MELO, Olímpio de; Ordens Militares Portuguesas e outras Condecorações, Imprensa Nacional, Lisboa, 1922

sábado, 2 de março de 2013

Marcos da Comenda de Rossas, Arouca

Foi há precisamente dez anos que A. J. Brandão de Pinho, então a cursar Direito na Universidade Lusíada do Porto, iniciou a procura e inventariação dos Marcos existentes nos limites da extinta Comenda  de Rossas da Ordem de Malta, actual freguesia de Rossas, no concelho de Arouca. Dos 46 marcos levantados e hábitos abertos em 1630, bem como das reposições feitas em 1656, 1702 e 1769,  foram encontrados e inventariados 23.
Este trabalho foi a motivação necessária para que se estendesse o estudo a muitos outros aspectos da freguesia de Rossas, sendo hoje apenas um dos capítulos de um trabalho mais extenso epigrafado "Rossas - Inventário Natural, Patrimonial e Sociológico", que o autor está empenhado em fazer dar à estampa até ao próximo dia 22 de Agosto do presente ano. Data em que se assinala o 25.º Aniversário do falecimento de Dom Domingos de Pinho Brandão, bispo auxiliar da Diocese do Porto, natural da freguesia de Rossas, que primeiramente se debruçou sobre as Demarcações da Comenda e os Limites da Freguesia.



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bombeiros Voluntários da "Cruz de Malta"

A pouco mais de cinco anos de completar um século de existência, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da “Cruz de Malta”, com o seu quartel-sede na Praça do Leão, em Lisboa, associou-se às Comemorações dos 900 Anos da Bula Pie Postulatio Voluntatis, de Pascoal II, que reconheceu e conferiu protecção ao Hospital de São João, fundado em Jerusalém. Esta importante efeméride para a história da Ordem esteve assim na origem da Cerimónia que hoje teve lugar no quartel-sede dos Bombeiros Voluntários da "Cruz de Malta", e contou com a presença de S.E. o Senhor Embaixador da Ordem de Malta em Portugal, Dr. Miguel de Polignac de Barros, S.E. o Senhor Conde de Albuquerque, presidente do Conselho da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses, o Senhor Dr. João Pedro de Campos Henriques, secretário do Conselho da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses, o Senhor Tenente-Coronel João Alvelos, Assessor do Hospitalário, e Duarte Pizarro, em representação do Corpo de Voluntários.
 
 
 
 
O contexto histórico-social da segunda década do século passado, caracteriza-se pela ocorrência e decorrências do primeiro conflito bélico mundial (1914-1918) a que se somaram algumas epidemias, nomeadamente a denominada Gripe Espanhola (1918-1919), identificada no começo de março de 1918 em tropas dos Estados Unidos, mas que em outubro de 1918 estava já espalhada por todos os continentes, tornando-se numa pandemia mundial. Com efeito, apesar de pouco duradouro, tratou-se de um flagelo extraordinariamente violento e mortal que ao fim de seis meses tinha já dizimado cerca de 25 milhões de pessoas, havendo estimativas que apontam mesmo para um número duas vezes maior.
Em 27 de setembro de 1918, volvidos apenas 19 anos desde a fundação da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem de Malta, um grupo de Cavaleiros, motivado pelo espírito fundador e por preocupações assistencialistas decorrentes, nomeadamente, da epidemia que então grassava impiedosamente, funda a 1.ª Secção Auxiliar de Socorros da cidade de Lisboa, com a designação de Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da “Cruz de Malta”, sob o lema "Pro Fide et Pro Utilitate Hominum".
Um lema que nos recorda o espírito que esteve na origem da fundação da Ordem há mais de 900 Anos em Jerusalém e coincide com o ambiente de Fé que se começava então a viver em Portugal com as Aparições de Nossa Senhora, em Fátima, pouco mais do ano antes da fundação deste Corpo de Bombeiros. Em pouco tempo, os Bombeiros Voluntários da "Cruz de Malta", para além dos serviços prestados na sua área de influência, estavam na estrada a auxiliar os peregrinos a Fátima, tal qual a Ordem o faz ainda hoje, tal qual a Ordem o fez outrora aos peregrinos à Terra Santa.
 
O espírito de Fé, de voluntariado e assistencialismo que une a Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem de Malta e a Associação dos Bombeiros Voluntários da “Cruz de Malta”, que entretanto fizeram o seu próprio caminho, teve assim hoje um feliz, enriquecedor e promissor encontro com a história.

Com a devida vénia à Associação dos Bombeiros Voluntários da "Cruz de Malta", apresentamos seguidamente algumas fotos do seu arquivo histórico.

 

 





 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Visita aos edifícios da Ordem em Roma

Por ocasião da deslocação a Roma, no âmbito das Comemorações dos 900 Anos da Bula Pie Postulatio Voluntatis, pela qual o Papa Pascoal II aprovou a fundação do hospital de São João, em Jerusalém, e consagrou o Estatuto e Soberania da Ordem, aproveitamos para visitar os edifícios da Ordem nesta cidade. Dois deles, a sede do Grão-Priorado, no Monte Aventino, e o Palácio Magistral, na Via dei Condotti, com estatuto de extraterritorialidade, reconhecido pelo Estado Italiano, em 1869.
 
Casa dos Cavaleiros de Rodes, no Fórum Imperial
Da presença mais remota da Ordem de Malta em Roma, subsiste, no entanto, ainda hoje, a denominada Casa dos Cavaleiros de Rodes, edifício sobranceiro ao Fórum Imperial. Trata-se de um castelo medieval do século XII, parcialmente incrustado no Fórum de Augusto, que terá sido adquirido pela Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém quando se encontravam ainda sediados na ilha de Rodes.
Com efeito, alguma historiografia atribui esta propriedade à Ordem dos Hospitalários a partir de 1466, ano em que Sua Santidade o Papa Paulo II terá confiado a administração do Convento dos Cavaleiros de São João de Jerusalém ao seu Cardeal Marco Barbo.
Refira-se que a área envolvente deste edifício foi afetada pela reconversão que entre 1924 e 1932 levou à abertura da Via dei Fori Imperiali, de que resultou o desaparecimento dos edifícios medievais do Mosteiro de São Basílio e de um Convento Dominicano do século XVI.
Em 1930-1946 o edifício encontrava-se na posse da Comuna de Roma e foi restaurado, mas, em 1946, voltou a ser confiado à Ordem, sendo desde então a sede da Associação Italiana da Ordem Soberana Militar de Malta e do Corpo Italiano de Socorro da OSMM, com sua Capela dedicada ao Santo Patrono São João Baptista.
 

 
Grão-Priorado da Ordem de Malta, no Monte Aventino
Terá sido um Mosteiro beneditino fortificado no século X, passando depois a propriedade dos Templários, até à extinção desta Ordem, em 1312, altura em que passou para a Ordem dos Hospitalários de São João de Jerusalém e de Rodes.
Está esta Villa sobranceira ao rio Tibre, com largas e belas vistas sobre a baixa de Roma e as cúpulas do Vaticano. Aí se chega pela via Santa Sabina, que termina na pequena e pitoresca Piazza dei Cavallieri di Malta, onde se encontra, no Portal principal da propriedade, um dos motivos de maior atração e curiosidade do Monte Aventino. O Buraco da Fechadura, pelo qual se avistam três "Estados": o da Ordem de Malta; o de Itália e o do Vaticano, cuja cúpula da Basílica de S. Pedro se afigura bem ao centro da perspetiva, enquadrada pelos cedros que ladeiam a entrada principal da Villa do Grão-Priorado.
Para além do Palácio do Grão-Priorado, que alberga também a Embaixada da Ordem de Malta em Itália, podemos ainda encontrar nesta propriedade a Igreja de Santa Maria do Priorado, uma antiga e bela igreja completamente redesenhada por Piranesi em 1765, cujo frontão é emparelhado por pilastras com capitéis fantasiosos e uma torre ladeada por esfinges sentadas, proporcionando talvez o exemplo mais antigo de arquitetura neoclássica em Roma.


 
Palácio Magistral da Ordem de Malta, na Via dei Condotti
Em 12 de junho de 1798, as forças francesas sob comando de Napoleão Bonaparte capturaram a cidade de La Valletta, na ilha de Malta, que até então e desde a doação do Sacro Imperador Romano Carlos V, em 1530, era a capital da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta. Napoleão deixou a cidade com uma guarnição considerável e uma administração escolhida a dedo. Em 5 de setembro de 1800, os britânicos conquistaram a ilha das forças francesas e foi feita uma colônia britânica em 30 de março de 1814 pelo Tratado de Paris. Razão pela qual, a Ordem de Malta ficou sem território, e chegou mesmo a ser dissolvida, depois de se ter instalado temporariamente em Messina, Catânia e Ferrara. Ressurgiu, no entanto, em 1834 – ano em que foi extinta em Portugal -, sob o novo nome "Ordem Hospitalária, Soberana e Militar de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta", ou simplesmente "Ordem Soberana Militar de Malta" (OSMM).
Antonio Bosio, famoso arqueólogo italiano, cujo pai era o representante da Ordem de Malta junto da Santa Sé, comprou o edifício na então Via dei Trinitatis, que mais tarde se viria a tornar o Palácio da Ordem de Malta; quando morreu, em 1629, deixou o prédio para a Ordem. De 1889 a 1894, foi reformado e reestruturado, com recuperação da traça original.
Está este prédio localizado no centro da cidade de Roma, na afamada Via dei Condotti, a poucos passos da Praça de Espanha.

 
 
Território próprio da Ordem de Malta
Apesar de se referir frequentemente que a Ordem de Malta tem o estatuto de um Estado Soberano, embora sem território, a Villa do Grão-Priorado, no Monte Aventino, e o Palácio Magistral, na Via dei Condotti, em Roma, efetivamente, constituem território próprio da Ordem, desde 1869. A que acresce o Forte de S. Ângelo, na Ilha de Malta, datado de 1530, concedido à Ordem por 99 anos, com caráter extraterritorial, pelo respetivo Governo em 13 de Março de 2001, como forma de assinalar e comemorar os 200 anos volvidos sobre a saída da Ordem daquela Ilha. Durante a Segunda Guerra Mundial considerou-se muito seriamente a possibilidade de lhe ser dada a soberania do território de Israel.
No entanto, a soberania da Ordem de Malta só veio a ser reconhecida em 1966, não como um Estado, pese embora o seu estatuto muito especial que lhe confere o reconhecimento como pessoa jurídica de Direito Internacional Público, mas como uma organização internacional, como a ONU ou a Cruz Vermelha. A soberania da Ordem faz com que lhe seja permitido imprimir os seus próprios selos e expedir os seus próprios passaportes, concedendo, efetivamente, nacionalidade maltesa aos seus membros. Atualmente, a Ordem de Malta mantém relações diplomáticas com o Vaticano e mais de cem países espalhados pelos 5 continentes, onde possui, inclusive, embaixadas, como é o caso de Portugal. O território ocupado pelas embaixadas é considerado solo maltês e os representantes diplomáticos da Ordem também são considerados cidadãos malteses.
Frequentemente, as Missões Diplomáticas de Estados junto da Santa Sé, acumulam a representação desses mesmos Estados junto da Ordem de Malta. Pelo que é muito comum encontrar o Brasão de Armas da Ordem de Malta nas fachadas das Embaixadas de Estado junto da Santa Sé, como é o caso, por exemplo, da Embaixada de Portugal, cujo atual e belo edifício também tivemos a oportunidade de visitar, e da Embaixada de Espanha, sita na Praça com o mesmo nome, ao cimo da Via dei Condotti.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PALAVRAS DE SUA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI DIRIGIDAS AOS CAVALEIROS DA ORDEM DE MALTA EM 09.II.2013

 
Queridos Irmãos e Irmãs!
Com alegria, acolho e saúdo a cada um de vós, Cavaleiros e Damas, Capelães e voluntários, da Ordem Soberana Militar de Malta. Saúdo de modo especial Sua Alteza Eminentíssima o Grão-Mestre Frei Matthew Festing, agradecendo-lhe as amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos vós; agradeço também a oferta monetária que me quisestes entregar e que destinei a uma obra de caridade. Dirijo uma saudação afectuosa aos Cardeais e aos Irmãos no Episcopado e no Presbiterado, nomeadamente ao meu Secretário de Estado, que acaba de presidir à Eucaristia, e ao Cardeal Paolo Sardi, Patrono da Ordem, a quem agradeço a solicitude com que se empenha na consolidação do vínculo especial que vos une à Igreja Católica e de modo peculiar à Santa Sé. Com gratidão, saúdo D. Angelo Acerbi, vosso Prelado. Por fim, saúdo os membros do Corpo Diplomático, bem como todas as altas personalidades e autoridades aqui presentes.
Este encontro é motivado pela passagem do nono centenário do solene privilégio Pie postulatio voluntatis, de 15 de Fevereiro de 1113, pelo qual o Papa Pascoal II colocava a recém-nascida «fraternidade hospitalar» de Jerusalém, dedicada a São João Baptista, sob a tutela da Igreja e a tornava soberana, constituindo-a como Ordem de direito eclesial com a faculdade de eleger livremente os seus superiores, sem interferência da parte de outras autoridades seculares ou religiosas. Esta importante ocorrência reveste-se de um significado especial no contexto do Ano da Fé, durante o qual a Igreja é chamada a renovar a alegria e o compromisso de acreditar em Jesus Cristo, único Salvador do mundo. A este respeito, também vós sois chamados a acolher este tempo de graça, para aprofundar o conhecimento do Senhor e fazer resplandecer a verdade e a beleza da fé, através do testemunho da vossa vida e do vosso serviço nos dias de hoje.
A vossa Ordem distinguiu-se, desde o início, pela sua fidelidade à Igreja e ao Sucessor de Pedro, bem como pela sua irrenunciável fisionomia espiritual, caracterizada por um alto ideal religioso. Continuai a caminhar por esta estrada, testemunhando concretamente a força transformadora da fé. Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir Jesus, e depois foram pelo mundo inteiro, cumprindo o mandato de levar o Evangelho a toda a criatura; sem medo algum, anunciaram a todos a força da cruz e a alegria da ressurreição de Cristo, das quais tinham sido testemunhas directas. Pela fé, os mártires deram a sua vida, mostrando a verdade do Evangelho que os transformara e fizera capazes de chegar até ao dom maior, fruto do amor, com o perdão dos seus próprios perseguidores. E pela fé, ao longo dos séculos, os membros da vossa Ordem prodigalizaram-se, primeiro, na assistência dos doentes em Jerusalém e, depois, no amparo dos peregrinos na Terra Santa, expostos a graves perigos, escrevendo gloriosas páginas de caridade cristã e defesa da cristandade. No século XIX, a Ordem abriu-se a espaços novos e mais amplos de actividade no campo da assistência e ao serviço dos doentes e dos pobres, mas sem nunca renunciar aos ideais originários, mormente ao duma intensa vida espiritual de cada um dos seus membros. E o vosso empenho deve prosseguir na mesma direcção, com uma atenção muito particular à consagração religiosa – a dos Professos – que constitui o coração da Ordem. Não deveis esquecer jamais as vossas raízes, quando o Beato Geraldo e os seus companheiros se consagraram com os votos ao serviço dos pobres, tendo o privilégio Pie postulatio voluntatis sancionado a sua vocação. Assim os membros da recém-nascida instituição apresentavam-se com os traços da vida religiosa: o empenho por alcançar a perfeição cristã através da profissão dos três votos, o carisma a que se consagravam e a fraternidade entre os membros. Também hoje a vocação do professo deve ser objecto de grande solicitude, naturalmente sem descuidar a vida espiritual de todos.
Neste sentido, quando comparada com outras realidades comprometidas internacionalmente na assistência aos doentes, na solidariedade e na promoção humana, a vossa Ordem distingue-se pela inspiração cristã que deve orientar constantemente o compromisso social dos seus membros. Sabei preservar e cultivar este vosso carácter qualificativo e trabalhai com renovado ardor apostólico, sempre numa atitude de profunda sintonia com o Magistério da Igreja. A vossa obra preciosa e benfazeja, articulada em vários âmbitos e realizada em diversas partes do mundo, concentrada de modo particular no serviço ao doente através de estruturas hospitalares e sanitárias, não é simples filantropia mas expressão eficaz e testemunho vivo de amor evangélico.
Na Sagrada Escritura, o apelo ao amor do próximo está ligado com o mandamento de amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (cf. Mc 12, 29-31). Por conseguinte, o amor do próximo corresponde ao mandato e ao exemplo de Cristo, se estiver fundado num verdadeiro amor a Deus. Assim o cristão, com a própria dedicação, pode fazer experimentar aos outros a ternura providente do Pai celeste, graças a uma conformação cada vez mais profunda a Cristo. Entretanto para dar amor aos irmãos, é necessário tirá-lo da fornalha da caridade divina por meio da oração, da escuta assídua da Palavra de Deus e de uma vida centrada na Eucaristia. A vossa vida de cada dia deve estar permeada pela presença de Jesus, sob cujo olhar sois chamados a colocar também os sofrimentos dos doentes, a solidão dos idosos, as dificuldades dos deficientes. Indo ao encontro destas pessoas, vós servis Cristo: «Sempre que fizerdes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).
Queridos amigos, continuai a trabalhar na sociedade e no mundo ao longo das estradas-mestras indicadas pelo Evangelho: a fé e a caridade, para reavivar a esperança. A fé, como testemunho de adesão a Cristo e de compromisso na missão evangélica, que vos estimula a uma presença sempre mais viva na comunidade eclesial e a uma pertença cada vez mais consciente ao Povo de Deus; a caridade, como expressão de fraternidade em Cristo, através das obras de misericórdia a favor dos doentes, dos pobres, dos necessitados de amor, conforto e assistência, dos atribulados pela solidão, a desorientação e as novas pobrezas materiais e espirituais. Estes ideais estão bem expressos no vosso lema: «Tuitio fidei et obsequium pauperum». Nestas palavras, está bem sintetizado o carisma da vossa Ordem que, como sujeito de direito internacional, não aspira a exercer poderes nem influências de carácter mundano, mas deseja desempenhar com plena liberdade a sua missão em prol do bem integral do homem, espírito e corpo, atendendo tanto aos indivíduos como à comunidade, sobretudo àqueles que mais precisam de esperança e de amor.
A Santíssima Virgem – a Bem-aventurada Virgem de Filermo – sustente com a sua protecção materna os vossos propósitos e projectos; o vosso protector celeste São João Baptista e o Beato Geraldo, os Santos e Beatos da Ordem vos acompanhem com a sua intercessão. Quanto a mim, asseguro-vos a minha oração por vós aqui presentes, por todos os membros da Ordem, bem como pelos numerosos e beneméritos voluntários, incluindo o consistente grupo das crianças, e por quantos vos coadjuvam nas vossas actividades, ao mesmo tempo que de coração vos concedo, extensiva às vossas famílias, uma especial Bênção Apostólica.