domingo, 29 de Junho de 2014

Festival Terras sem Sombra encerra edição em Moura, antiga comenda da Ordem de Malta


Fundado em 2003, o Festival Terras sem Sombra (link) tem vindo a afirmar-se como o mais destacado do seu género em Portugal. É uma iniciativa da sociedade civil que visa tornar acessíveis, a um público alargado, os monumentos religiosos da Diocese de Beja, como locais privilegiados – pela história, pela arte, pela acústica – para a fruição da música sacra. Resulta da parceria entre o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, a Pedra Angular (Associação dos Amigos do Património da Diocese de Beja), o Turismo do Alentejo, o Teatro Nacional de São Carlos, os Municípios, as Paróquias, as Misericórdias, sem esquecer as “forças vivas” da região, como as empresas locais e as famílias. De carácter itinerante, coloca a tónica na descentralização cultural, na formação de novos públicos e na irradiação do Alentejo. Tem uma programação de qualidade internacional de que fazem parte, além dos concertos, master classes, conferências temáticas, visitas guiadas e acções de pedagogia artística. O diálogo entre as grandes páginas do passado e a criação contemporânea, a abertura a jovens compositores e intérpretes, a encomenda regular de novas obras, a transversalidade das artes, o resgate do património musicológico, a visão ecuménica do Sagrado são elementos estruturantes de um projecto que rasga fronteiras. A igreja de São João Baptista, matriz de Moura, foi o palco escolhido para o último concerto da temporada de 2014 do Festival Terras Sem Sombra (FTSS) que, desde Março, realizou a sua itinerância pelo Alentejo, numa estreita associação entre música, património religioso e salvaguarda da biodiversidade. A Orquestra Gulbenkian, a violinista Vera Martínez e o violetista Jonathan Brown, sob a direcção musical de Paul McCreesh e Pedro Neves, encerraram assim a 10.ª edição do mais importante festival de música sacra do país, este ano dedicada a D. Fr. Manuel do Cenáculo, primeiro bispo de Beja e figura marcante da cultura portuguesa, por ocasião dos 200 anos da sua morte.
Moura é uma cidade pertencente ao Distrito de Beja, região do Alentejo e sub-região do Baixo Alentejo, com cerca de 8 419 habitantes. É sede de um município com 957,73 km² de área e 15 167 habitantes (2011), limitado a nordeste pelo município de Mourão, a leste por Barrancos, a leste e sul pela Espanha, a sudoeste por Serpa, a oeste pela Vidigueira e a noroeste por Portel e por Reguengos de Monsaraz. Teve foral dado em Abril de 1151 e foral novo dado por D. Manuel I em 1 de Junho de 1512.
Quando D. Dinis, em 16 de Fevereiro de 1279, subiu ao trono de Portugal, a fronteira com Leão e Castela não correspondia ainda ao traçado actual. Na fronteira lusa com Leão e Castela, havia porém duas zonas em litígio. A primeira situava-se na zona do Guadiana, em torno das vilas de Mourão, Serpa, Moura e Noudar, que os cavaleiros da Ordem de Santiago haviam conquistado nas campanhas de D. Sancho II (1240-1245). A definição territorial do novo Reino não prescindia desses castelos que constituíam a defesa natural do baixo Alentejo. Acresce a circunstância de a tomada do Algarve no tempo de D. Afonso III (1249-1254) exigir a cobertura dos quatro castelos da margem esquerda do Guadiana. O monarca aceitou, pois, o domínio útil dessa região, como garantia da nova fronteira meridional do reino. Por morte do rei Afonso X, o Sábio, os castelos de Mourão, Serpa, Moura e Noudar foram doados a sua filha D. Beatriz, rainha de Portugal. Mas o rei Sancho IV considerou nula essa doação e autorizou o mestre da Ordem dos Hospitalários a recuperar aquelas vilas. Foi o bastante para D. Dinis declarar guerra a Sancho IV, que faleceu em 1295 sem que o litígio estivesse solucionado. E foi já com o rei Fernando III que, nos finais desse ano, aceitou a integração das terras a oriente do Guadiana em Portugal. Pouco a pouco, por compras, trocas, doações particulares, foi a Ordem do Hospital reunindo nessa região uma massa de bens, com que conseguiu constituir, ao cabo de alguns anos, a Comenda de Moura. Fr. D. Afonso Peres Farinha, Prior da Ordem que introduziu as relíquias do Santo Lenho de Vera Cruz de Marmelar e da Sé de Évora em Portugal, deteve e administrou a Comenda de Moura, com suas anexas ou pertenças de que naturalmente foi, senão o primeiro, ao menos um dos mais antigos Comendadores. Do registo do antigo cartório de Leça, primeira sede da Ordem em Portugal, consta ter havido um «Escambho de herdade que fez o ospital cõ Johã perez do qual ficou ao ospital o Castello de Moura». Uma composição amigável, feita por D. Martinho, bispo de Évora, de um lado, e o Prior do Hospital, frei D. João Garcia, do outro, acerca dos seus direitos e respectivas jurisdições em certas igrejas da Ordem – nomeadamente nas igrejas do Crato, e nas de Moura e de Serpa – refere que os capelães apresentados pelo Prior do bispo, quer fossem seculares, quer freires da Ordem, deveriam jurar nas mãos do próprio bispo que reconheceriam e respeitariam os direitos da Ordem, assim como os da autoridade diocesana. E entre as igrejas para que seriam apresentados capelães se nomearam as de Moura e de Serpa. Donde fica bem clara a posse da Ordem do Hospital na data do documento, 1248.

Delegação da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem de Malta
Trata-se, pois, de uma terra muito acarinhada pela Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta, única herdeira das tradições hospitalárias, assistenciais e culturais dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, em Portugal, que não quis, assim, deixar de se fazer representar no último concerto da temporada de 2014 do Festival Terras Sem Sombra (FTSS), evento musical e cultural de reconhecida e comprovada qualidade.



Ainda antes do inicio do concerto a Delegação da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses dirigiu-se à antiga Casa do Comendador, logo ali ao lado da Igreja Matriz dedicada a São João Baptista, onde ainda hoje figura a cruz oitavada de Malta sobre aquela que terá sido a porta de uma pequena capela da referida casa.
 

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Parlamento aprovou criação do Dia do Peregrino

O Parlamento aprovou hoje, dia 27/06/2014, a instituição do Dia do Peregrino, que vai ser celebrado a 13 de outubro, uma proposta da maioria PSD/CDS que visa “dignificar o papel do peregrino na construção da sociedade portuguesa”.
 
 277 | II Série A - Número: 113 | 15 de Maio de 2014
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 1050/XII (3.ª) INSTITUI O DIA NACIONAL DO PEREGRINO
1. Desde tempos imemoriais que os peregrinos – vocábulo de origem latina, per agrum, que significa ‘pelos campos’ –, realizam, no âmbito histórico e religioso, individualmente ou em grupo, jornadas em direção a um determinado lugar sagrado.
2. Em Portugal, existe uma forte tradição na realização de peregrinações cristãs direccionadas para os mais variados locais de culto, com destaque para aquelas que se decorrem no Santuário de Fátima, que envolve inúmeras pessoas.
3. É de referir que a condição de peregrino não se esgota na intenção de caminhar em direção de um lugar sagrado; importa também valorizar o motivo que o levou a fazer essa jornada, determinante para a sua vida, onde muitas vezes se procura o sentido da própria existência, como um percurso interior.
4. Importa referir, também, que o ato de peregrinar abrange uma amplitude que vai muito para além da condição de crente de quem o pratica, abrangendo uma dimensão social, cultural e económica que se deve também valorizar.
5. Na sua declaração de 23 de novembro de 1987, a propósito da revitalização do Caminho de Santiago, o Conselho da Europa reconhece “que a fç que, ao longo dos tempos, animou os peregrinos e, para alçm das diferenças e interesses nacionais, os reuniu numa aspiração comum, nos inspire hoje, e muito particularmente os jovens, a percorrer estes caminhos, em ordem a construirmos uma sociedade fundada na tolerância, no respeito do outro, na liberdade e na solidariedade”.
6. Em suma, no amplo conjunto de dias evocativos de vários acontecimentos e efemérides relevantes, a criação deste dia será uma iniciativa que dignificará o papel do peregrino na construção da sociedade portuguesa.
Assim, a Assembleia da República, resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da República Portuguesa o seguinte: Instituir o dia 13 de Outubro como o Dia Nacional do Peregrino.
Palácio de São Bento, 13 de maio de 2014.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

Celebrações do Corpo de Deus em Lisboa

 


Celebrou-se, no dia 22 de Junho, na Sé de Lisboa, a missa de Corpo de Deus presidida por D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, cerimónia que contou com a presença de altas patentes das Forças Armadas Portuguesas e representantes de ordens militares e institutos religiosos. Estiveram também presentes os vereadores da Câmara Municipal de Lisboa Jorge Máximo, António Prôa e João Gonçalves Pereira.
Na missa foram lidas passagens do Livro do Deuteronómio, da Carta de S. Paulo aos Coríntios e do Evangelho de S. João. Durante a homilia, o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, referiu a importância do significado de Corpo de Deus nos tempos atuais, enquanto promessa de regresso a Deus e de mitigação da fome de paz, de trabalho e de Deus.
Já durante a parte da tarde realizou-se uma procissão em que participaram de milhares de fiéis, com saída da Sé, percorrendo as ruas da Baixa: Rua das Pedras Negras, Rua da Madalena, Rua dos Condes de Monsanto, Praça da Figueira, Rua da Prata, Rua da Conceição e Rua de Santo António à Sé, tornando ao adro da catedral lisboeta, para a benção solene, na escadaria da Sé - Igreja de Santa Maria Maior. 
No cortejo, no qual se integrou o vereador José Sá Fernandes em representação da autarquia, participaram a charanga da GNR, acompanhada por carros da limpeza da CML, uma escolta ao pálio com cadetes da Armada, do Exército, da Força Aérea e da Polícia, para além de elementos do Regimento de Sapadores Bombeiros e das Ordens Terceiras.
O pálio abrigava o patriarca de Lisboa, precedido por altos prelados da Igreja Católica portuguesa e pelas formações de elementos de diversas irmandades do Santíssimo Sacramento, com as suas varas, como as da Sé, dos Mártires, de Arroios, da Encarnação, de São Nicolau, ou da Conceição Velha. Uma dúzia de outras fez-se representar com os respetivos pendões, abrindo o cortejo processional.
A celebração do Corpo de Deus remonta ao século XIII, instituída pelo papa Urbano IV em 1264, tendo Lisboa sido uma das primeiras cidades a instituir o culto. Foi, durante séculos, uma das manifestações religiosas mais populares da cidade.

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Cavaleiro de Justiça da Ordem de Malta junto à imagem de São João Baptista
Cerimónias Comemorativas do Dia do Santo Patrono da Ordem
Lisboa, 23 de junho de 2013

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

domingo, 15 de Junho de 2014

A propósito da histórica participação da Ordem de Malta na Procissão do Corpo de Deus

Trata-se de uma das mais antigas Procissões de Lisboa. A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII, altura em que a Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado. A Festa de Corpus Christi foi então instituída em 11 de Agosto de 1264, pela bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes.
Em Portugal, a solenidade do Corpus Christi já era celebrada no século XIII, desde o reinado de D. Afonso III. Era, à época, uma simples festa de adoração, não envolvendo a procissão pelas ruas. O rito da procissão foi instituído pelo Papa João XXII (1317). Actualmente, neste dia, em todas as 20 dioceses de Portugal, fazem-se procissões solenes a partir da igreja catedral, tal como em muitas outras localidades, que são muito concorridas. Estas procissões atingem o seu esplendor máximo em Braga, Porto e Lisboa. De resto, na capital, a festa do Corpo de Deus incluiu a Procissão, pela primeira vez, no reinado de D. João I, em 1389, pouco tempo volvido após a consolidação da autonomia face a Castela e do bom augúrio criado pelas vitórias bélicas de D. Nuno Álvares Pereira e pela influência cultural britânica (de tal forma que S. Jorge passou a ser considerado Padroeiro de Portugal).
Razão pela qual, à solenidade do Corpo de Deus se juntou a festa de São Jorge e desta junção resultou a magnificência da Procissão da capital. Manifestação religiosa que chegou a atingir surpreendente grandiosidade no tempo de D. João V, incorporando a Procissão, para além doutras, delegações de diversas Ordens Religiosas e Militares, como da Ordem de Malta, nomeadamente a partir de 1899, data em que se fundou a Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, herdeira das tradições hospitalárias, assistenciais e culturais da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, em Portugal.

 El-Rei D. Manuel II, Presidente de Honra da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem de Malta, 
pegando na primeira vara do pálio, na Procissão do Corpo de Deus, em 18 de Junho de 1909

Sempre em Junho, as cerimónias tinham o seu início no Castelo de São Jorge, onde a imagem do Santo era colocada sobre um cavalo e percorria as ruas da cidade guardada pelo seu pajem e pelo seu escudeiro, o "homem de ferro", que segurava o estandarte de S. Jorge, o padroeiro da cidade e defensor da fé cristã. Quando o cortejo chegava à Sé catedral, era celebrada uma missa onde o Cardeal-Patriarca elevava a Custódia (Corpo de Deus), aos presentes e a preparava para que, finda a celebração, emergisse à porta da igreja, sob um magnífico pálio, rodeado por Suas Magestades e pela nobreza, formando-se a procissão, na qual o rei e os infantes tomavam uma das varas (geralmente a primeira da direita), sendo as restantes destinadas ao presidente do Senado da Câmara e à antiga nobreza.
A procissão prosseguia o seu caminho passando pela Igreja de Santo António e pela Madalena até à baixa, percorrendo as suas principais artérias de onde partia para regressar à Sé.

El-Rei D. Manuel II à saída da Sé no final das Cerimónias,
em 18 de Junho de 1909
Ao longo da história da Procissão do Corpo de Deus em Lisboa, porque especialmente integrada pelos mais altos dignitários da Corte - aparentemente mais desprotegidos - é curioso notar a tentação de realização de atentados contra as figuras régias. Um desses atentados deu-se contra El-Rei D. João IV. Tendo sobrevivido o monarca, sua esposa (D. Luísa de Gusmão) promoveu a construção do Convento dos Carmelitas, justamente no lugar do falhado crime, na baixa lisboeta, ficando conhecido como do “Corpus Christi”.
Outro atentado famoso deu-se contra D. Manuel II, perto da Igreja da Vitória, quando a procissão passava perto da Igreja da Vitória, na rua do Ouro.

Saída da Procissão, em 30 de Maio de 1907. El-Rei D. Carlos I, Primeiro Presidente de Honra da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem de Malta, pegando na primeira vara direita do pálio.
Com a passagem à República, a Legislação de 1910, que iniciou o processo de separação da Igreja do Estado, proibiu os dias santos da Igreja (excepto o Natal e o dia 1 de Janeiro) e interrompeu o culto público.
Em 2003, a Procissão do Corpo de Deus voltou a percorrer as ruas da Baixa, por onde outrora se cumpriu. A solenidade, então presidida pelo Cardeal-Patriarca - em que participaram, na missa e procissão, mais de cinco mil fiéis -, teve começo com a celebração da Missa no Largo da Igreja de São Domingos, no logradouro do Palácio da Independência, rumando depois à Rua Garrett, diante da Basílica dos Mártires, onde terminou com a Bênção do Santíssimo Sacramento.

Delegação da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Miltar de Malta, presente nas Cerimónias Religiosas do Corpo de Deus na Sé Patriarcal de Lisboa, em 2013.
Em 2014, as celebrações da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo ocorrerão na Sé Patriarcal de Lisboa, no Domingo, dia 22 de Junho, sendo presididas pelo Senhor Patriarca de Lisboa, Senhor Dom Manuel Clemente. Às 11h30 realiza-se a Missa e às 17h00 realiza-se a Procissão por algumas ruas da Baixa, com início e término na Sé Patriarcal, onde será feita a Bênção solene às 18h30.

Fontes: SNPC; Revelar LX
Imagens: Família Real. Álbum de fotografias. Quimera Editores, Lda; blog da ACPOSMM.

segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Visita à antiga comenda de Malta, Vila do Conde

No passado fim-de-semana visitamos a antiga comenda de Malta, em Vila do Conde. Dessa pertença à Ordem dos Cavaleiros Hopsitalários herdou a freguesia a sua denominação. Essencialmente rural, com suas estradas integralmente em paralelos e a propriedade rústica murada, Malta preserva também com muito gosto as marcas e simbologia própria daquela antiga pertença, o que se evidencia particularmente na Igreja Matriz.
Malta integra atualmente uma nova freguesia, pertencente ao concelho e comarca de Vila do Conde e distrito, diocese e relação do Porto, denominada “União das Freguesias de Malta e Canidelo”, resultante da Reorganização Administrativa Territorial Autárquica, concluída em 2013. Antes desta reorganização constituía uma freguesia autónoma com 1,85 km² de área e 1 385 habitantes (2011). Pertenceu ao concelho da Maia até 24.X.1855, data em que passou a integrar o concelho e comarca de Vila do Conde.
A casa que terá sido pertença da comenda da Ordem de Malta, edificada em data que não se conseguiu ainda precisar e situada na hoje denominada Rua dos Cavaleiros da Ordem de Malta poderá ser o mais antigo testemunho urbano ainda de pé, nesta freguesia que se chamou Santa Cristina de Cornes. Facto que se pode deduzir de alguns pedestais e seu torreão. Já o aspecto geral do imóvel indicia uma renovação efectuada no século XVIII.
A freguesia nem sempre se denominou assim. Só a partir de 1683 é que se consumou tal designação, pois no catálogo dos Bispos do Porto de 1623, ainda se lê o seu antiquíssimo topónimo – Santa Cristina de Cornes. O documento mais antigo que se conhece data do ano de 1097 e é um título de bens imóveis sitos em vila Cornias. Este nome nunca agradou aos habitantes desta terra, ainda que se saiba derivar, por certo, do latim Cornus, que era uma pequena árvore frutífera. Por a palavra se prestar a equívocos, o abade frei Manuel da Costa, que paroquiou a freguesia entre 1683 e 1710, foi o primeiro a usar o seu actual nome precedido do Orago da Freguesia – Santa Cristina de Malta – aproveitando o facto de ser abadia da Ordem de Malta, apresentada pelo Bailio de Leça.
Foi esta comenda extinta por força do Decreto de 30 de Maio de 1834, no âmbito da "Reforma Geral Eclesiástica", executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837).
 




 

sexta-feira, 28 de Março de 2014

quinta-feira, 27 de Março de 2014

RELÍQUIA DO SANTO LENHO DA SÉ DE ÉVORA

A propósito da época cristã que estamos a viver, vale a pena fazer aqui notícia e trazer à memória um dos tesouros mais emblemáticos da Sé de Évora – a Relíquia do Santo Lenho (na imagem) -, cuja história da sua introdução em Portugal está ligada à Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, nomeadamente, à acção do seu Prior Frei Afonso Peres Farinha, que a terá trazido da Palestina, no tempo das Cruzadas.
É por via da história e circunstância da introdução da Relíquia do Santo Lenho em Portugal, nomeadamente em Vera Cruz de Marmelar, Portel (que se pode consultar aqui), onde inicialmente se guardou e onde hoje se encontra parte da mesma, que se compreende a verdadeira história da Relíquia do Santo Lenho da Sé de Évora.
Dispomos já hoje de vários trabalhos sobre ambas as Relíquias, alguns dos quais, nomeadamente no caso da Sé de Évora, no entanto, acabam por se debruçar mais sobre os relicários do que sobre as relíquias, descurando, também assim, a origem e história das respectivas relíquias, em benefício da história dos relicários.
Servimo-nos, pois, de uma descrição feita aquando da Visitação Geral da Ordem de Malta às Suas Comendas nas Províncias da Estremadura e Alentejo, nas Comendas de Santarém, Torres Vedras, Torres Novas e Landal, Vera Cruz e Portel, Elvas e Montoito, em 1744, para dar esta nota.
«Tem esta Igreja uma insigne, milagrosa e venerável Relíquia do Santo Lenho em forma de cruz Patriarcal, embutida num relicário de prata de filigrana formado de custódia com vidro, e se conserva com toda a veneração fechada em um nicho de pedra mármore dourada com capa e cortina com lâmpada de prata quotidianamente acesa, expondo-se no dia da invenção da Vera Cruz de 3 de Maio e da sua exaltação a 14 de Setembro em cujos dias concorre um numerável povo à referida Igreja, como também nos mais dias do ano levado da veneração e fé que têm na Santa Relíquia que é prodigiosa para todos os males e enfermidades e principalmente para os vexados e possessos do Demónio e é tradição antiga de que se faz memória nos Tombos desta Comenda que Frei Afonso Peres Farinha, Prior que foi do Hospital neste Reino trouxera esta Santa Relíquia de Jerusalém no ano de 1271 e que vindo destinada para a Sé de Évora, ao passar por esta localidade, a mula que a trazia não passou adiante. Assim que lhe foi retirada a Santa Relíquia, de repente começou a brotar um canal de água que ainda hoje se preserva com o título de Fonte Santa, e à mesma Sagrada Relíquia se atribui a glória da famosa Batalha do Salado no ano de 1340, aonde a instancias d’El-Rei D. Afonso IV, a conduziu D. Álvaro Gonçalves Pereira, Grão Prior do Crato, e voltando da Batalha foi servida a Magestade do dito Senhor se partisse a mesma Sagrada Relíquia em duas partes iguais ficando uma parte nesta Igreja da Vera da Cruz, e indo a outra como foi para a Sé de Évora de sorte que no seu principio tinha perto de dois palmos de comprimento com dois braços iguais, um no cimo e outro abaixo, o que tudo se declarou nos tombos desta Comenda referindo-se a crónica do dito Senhor e outros autores».

in ANTT - Ordem de Malta, Visitações, Livro n.º 15, folha 364v e seguintes.

De entre todas as relíquias, a mais venerada é sem dúvida a do Santo Lenho, a da Cruz em que Jesus foi crucificado. Descoberta no século IV, em Jerusalém no monte Calvário, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino I, foi repartida entre o Oriente e o Ocidente e distribuída ao longo dos séculos em pequeníssimos fragmentos por toda a Cristandade. Até muito recentemente, era preocupação das paróquias possuírem a sagrada relíquia, resguardada em relicários e sacrários especiais e, por vezes conforme as rubricas litúrgicas, substituindo a eucaristia na bênção dos fiéis e, sobretudo, nas procissões com a honra de ser transportada sob o palio.

in Inventário Artístico da Diocese de Évora.

quarta-feira, 26 de Março de 2014