domingo, 27 de outubro de 2013

D. Nuno Álvares Pereira, feito São Nuno de Santa Maria, nascido e criado no seio da Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém

A poucos dias de se assinalar mais um aniversário do falecimento de D. Nuno Álvares Pereira, hoje dito São Nuno de Santa Maria, e neste tempo em que as boas referências e os grandes exemplos de vida nos parecem faltar, aproveitamos para discorrer um pouco sobre a proximidade e ligação deste nobre e famoso cavaleiro à Ordem Militar do Hospital de São João de Jerusalém e de Rodes, como em seu tempo se denominava a Ordem de Malta.

D. Nuno Álvares Pereira
D. Nuno, de seu nome Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, Nun’Álvares, Beato Nuno de Santa Maria (Beatificado em 23 de Janeiro de 1918) e, mais recentemente, São Nuno de Santa Maria (Canonizado em 26 de Abril de 2009), de acordo com a maioria dos historiadores, nasceu a 24 de Junho de 1360, no Paço do Bonjardim, Sertã, ou, de acordo com alguns autores, em Flor da Rosa, Crato; Paço e Fortaleza melhorados e acrescentados à Ordem dos Hospitalários por seu pai, D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, enquanto Prior do Crato. Faleceu, com 71 anos, a 01 de Novembro de 1431, em Lisboa.
 
O primeiro Prior do Crato, denominação do mais alto representante da Ordem em Portugal, que se seguiu à Batalha do Salado, travada em 1340, à de Prior do Hospital (Grão-Prior é uma denominação introduzida mais tarde por D. Luís de Portugal, filho de D.Manuel I), é apontado como tendo sido D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, que mandou construir o Mosteiro da Flor da Rosa, onde os seus restos mortais repousam em túmulo, ao qual sucedeu o seu filho mais velho D. Pedro Álvares Pereira, pai e irmão, respetivamente, de D. Nuno Álvares Pereira, futuro Condestável do Reino.
 
De acordo com os autores mais renomados (por todos, Frei Lucas de Santa Catarina, Memórias das Ordem Militar de S. João de Malta… (1734); Pascoal José de Mello Freire, Dissertação histórico jurídica sobre os direitos e jurisdição do Grão Prior do Crato e do seu provisor… (1786), José Anastácio de Figueiredo Ribeiro, Nova História da Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores Dela em Portugal… (1793) e Paula Maria de Carvalho Pinto da Costa, A Ordem Militar do Hospital em Portugal… (1993)), que se referem e/ou elencam os Priores do Crato, D. Nuno Álvares Pereira, nunca foi Prior do Crato, nem sequer terá integrado a Ordem do Hospital, de S. João ou dos Hospitalários, como então era mais conhecida entre nós, mesmo como mero Cavaleiro, embora tenha nascido e crescido no seio desta Ordem, nomeadamente, na casa de seu pai, em Flor da Rosa, onde terá vivido pelo menos até aos 13 anos, tendo aí aprendido as artes militares e ganho o gosto pela leitura, sobretudo pelos livros de Cavalaria.
 
Com efeito, em vida de D. Nuno Álvares Pereira, gozaram daquela Dignidade os seguintes membros da Ordem: D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, que foi o primeiro denominado Prior do Crato, ao qual se seguiram: D. Frei Pedro Álvares Pereira, filho do antecedente, como já se referiu; D. Frei Álvaro Gonçalves Camelo, em tempo de D. João I; D. Frei Lourenço Esteves de Gois, no mesmo tempo; D. Frei Nuno de Gois, no mesmo tempo; D. Frei Henrique de Castro, no tempo de D. Afonso V; D. Frei Vasco de Ataíde, no mesmo Reinado; D. Frei Diogo Fernandes de Almeida, em tempo de D. João II; D. Frei João de Menezes, que serviu também a D. João II e El-Rei D. Manuel I.
 
D. Nuno Álvares Pereira, contava 13 anos de idade quando entrou para a corte do rei D. Fernando I, onde foi feito Cavaleiro com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Aos 16 anos, em 15 de Agosto de 1376, casou-se com Dona Leonor Alvim, fidalga da zona do Minho que enviuvara muito cedo e não tinha filhos. O casamento fora arranjado pelo rei e por D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, a contragosto do filho que não queria casar. Do matrimónio nasceram dois filhos que morreram durante o parto, e uma filha, Beatriz, a qual mais tarde viria a desposar o filho do rei D. João I, D. Afonso, primeiro duque de Bragança.
 
Cerca de 1378-1379, estando D. Nuno Álvares Pereira “a seu prazer em sua casa com sua mulher e filha que lhe já Deus dera”, é avisado da morte do pai, deslocando-se prontamente para ir assistir às solenes exéquias. Cumprido o seu dever volta a casa e aí se mantém até ao momento em que é chamado por El-Rei D. Fernando para que vá a Portalegre ter com o seu irmão D. Pedro Álvares Pereira, Prior do Crato, ajudando-o na guerra com Castela, em prol da manutenção das fronteiras do Entre-Tejo-e-Guadiana. Para aí se desloca levando consigo “vinte e cinco homens de armas: e trinta homens de pé escudados e todos bons homens e para feito”. D. Nuno Álvares Pereira está também presente no casamento de D. Beatriz com D. João I de Castela, que se realiza, em Elvas, em Abril de 1383.
 
Quando o rei D. Fernando I morreu, em 22 de Outubro de 1383, sem herdeiros a não ser a princesa D. Beatriz, casada com o rei D. João I de Castela, D. Nuno Álvares Pereira, que “estava Entre Douro e Minho em sua casa com sua mulher”, foi um dos primeiros nobres a apoiar as pretensões portuguesas de D. João, Mestre de Avis, à Coroa. Apesar de ser filho ilegítimo de D. Pedro I de Portugal, D. João afigurava-se como uma hipótese preferível à perda da independência nacional para Castela. Depois da primeira vitória militar de D. Nuno Álvares Pereira sobre os castelhanos na batalha dos Atoleiros, em Abril de 1384, D. João de Avis nomeou-o Condestável de Portugal e Conde de Ourém.
 
Representação de D. Nuno Álvares Pereira, enquanto rezava antes da Batalha de Aljubarrota
Seu irmão, D. Pedro Álvares Pereira, que entretanto se havia aliado aos castelhanos, liderou uma carga à retaguarda portuguesa, na Batalha de Aljubarrota, e aí terá morrido após uma queda de cavalo, enquanto atravessava o riacho de Aljubarrota, alegadamente, em fuga aos homens de seu irmão D. Nuno Álvares Pereira. Dando por certo este episódio da famigerada Batalha, travada no centro de Portugal, em 1385, e tendo este sobrevivido àquele, poder-se-ia abrir aqui uma possibilidade deste poder ter sucedido àquele na dignidade de Prior do Crato. Porém, já aquele não o era e já esse lugar se encontrava ocupado por D. Frei Álvaro Gonçalves Camelo, ao qual terá sucedido D. Frei Lourenço Esteves de Gois, de resto, por alegada intercessão do próprio D. Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal, como veremos pelo excerto que se passa a transcrever e que tomámos como credível:
 
«O primeiro que em Portugal se chamou Prior do Crato, foi D. Fr. Álvaro Gonçalves Pereira, pai do grande Condestável D. Nuno Alvares Pereira, ilustre tronco dos nossos Reis, e de quasi todos os da Europa, e com este título acompanhou o dito Rei D. Affonso IIII na celebre batalha do Salado.(…)
O primeiro Prior do Crato D. Fr. Álvaro Gonçalves Pereira, achando-se velho, pedio e obteve do Papa Urbano VI o Priorado a D. Fr. Álvaro Gonçalves Camelo, Mariscal do Reino: mas não querendo ElRei D. Fernando estar pelo provimento do Papa, ou por lhe não convir, ou por seguir as partes de Clemente VII, o proveo em D. Pedro Alvares Pereira, seu filho leigo e secular, visto que em nenhuma escritura se intitula Freire: servio D. Pedro de Prior em vida de seu pai, intitulando-se seu Lugartenente, e por sua morte ficou correntemente Prior do Crato, como se explica Brandão Monarch. Lusit. no lugar acima. E aqui temos que o Papa nomeou Grão-Prior, prevenindo o Mestre, e o Convento, que o Rei não esteve pela nomeação, que fez outra, e que a fez em pessoa secular. No anno de 1260 EIRei D. Affonso III nomeou para Prior do Mosteiro de Agoas-Santas, pertencente naquele tempo aos Cavalleiros do Santo Sepulcro, ou aos Hospitaleiros, o Cavalleiro Fr. Pedro Fontes de Ourém, Malt. Port. Liv. II, Cap.7 pag.291: EIRei D. João desgostando-se com o dito Prior D. Pedro Álvares Pereira, por entender que elle seguia as partes de Castella, nomeou por huma sua Provisão para o Priorado o sobredito D. Fr. Alvaro Gonçalves Camelo, que em virtude della tomou posse do mesmo Priorado; e desgostando-se também com este Prior Camelo, por se passar a Castella no anno de 1399, quiz nomear Grão-Prior Fernão Alvares de Almeida, ayo dos Infantes seus filhos, o qual não era Cavalleiro do Hospital: e posto que o não nomeou, não foi por esta razão, mas por lhe pedir o Condestavel D. Nuno Alvares insinuação para os Freires elegerem, como elegerão, o Commendador da Vera Cruz D. Fr. Lourenço Estevens de Goios, Monarch. Lusit, lug. Cit.»
 
Parece-nos suficientemente elucidativa esta passagem da Dissertação de Pascoal José de Mello Freire, para concluir que D. Nuno Álvares Pereira nunca foi Prior do Crato, pese embora tenha andado ligado e muito próximo da dignidade e até tenha influenciado a sua governação, em dada altura.
 
Mais são tantos os méritos de D. Nuno Álvares Pereira que nenhum autor, tanto mais dos que escreveram e sentiram o espírito da Ordem dos Hospitalários, teria conseguido resistir à tentação de ligar o Santo Condestável a esta Ordem, houvesse para isso a mais pequena sustentação. Mas não, nenhum dos autores consultados aponta D. Nuno Álvares Pereira como Prior do Crato, nem sequer ligado aos demais ofícios e/ou hierarquia da Ordem dos Hospitalários.

O que não quer dizer que não se trate de um dos mais importantes vultos da nossa história e da igreja, que a Ordem sempre reconheceu e estimou enquanto tal, fazendo sempre questão de vincar os aspectos históricos tidos como verdadeiros e procurando praticar e divulgar o seu exemplo de vida, «...pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres.».

Membros da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta junto da estátua de São Nuno de Santa Maria, inaugurada há um ano, no centro histórico da cidade de Barcelos.
Alerte-se, no entanto, para o facto de D. Nuno Álvares Pereira andar algumas vezes confundido com o seu próprio pai. Veja-se o exemplo do relicário medieval, em prata dourada, infelizmente desaparecido, do Santo Lenho, do Mosteiro de Vera Cruz de Marmelar, em Portel, que alguma historiografia tem atribuído a D. Nuno Álvares Pereira, alegando-se a grande devoção que este teria pela relíquia do Santo Lenho, mas, que é desmentida, a nosso ver correctamente, por Frei Lucas de Santa Catarina, que discorda desta atribuição, divergindo dos seus contemporâneos, ao afirmar que não foi o Santo Condestável mas sim seu pai, D. Fr. Álvaro Gonçalves Pereira, quem recolheu a relíquia do Santo Lenho “em huma ambula, que existe na igreja de Vera Cruz”.
 
Do seu casamento com Leonor de Alvim, como se referiu supra, D. Nuno Álvares Pereira teve três filhos, dois rapazes que morreram jovens e uma rapariga que sobreviveu. D. Beatriz Pereira de Alvim, de seu nome, veio a casar com o 1.º Duque de Bragança, D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança.
 
O Convento do Carmo, em Lisboa, que mandou construir em cumprimento de um voto, foi a última morada de D. Nuno Álvares Pereira, que aí entrou tomando o nome de Irmão Nuno de Santa Maria, em 1423, e aí permaneceu até ao soar do seu derradeiro suspiro em 1 de Novembro de 1431.
 
Aí repousaram os seus restos mortais em túmulo que o Terramoto de 1755 destruiu. Subsistiram, no entanto, os dizeres do seu epitáfio: “Aqui jaz aquele famoso Nuno, o Condestável, fundador da Sereníssima Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo.”

D. Nuno Álvares Pereira foi canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo papa Bento XVI, no dia 26 de Abril de 2009.

Selo alusivo à canonização de Beato Nuno de Santa Maria
Numa oportuna nota pastoral sobre a canonização, que nunca é demais reproduzir, a Conferência Episcopal Portuguesa, declarou:
"(…) o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão de melhor humanismo ao serviço do bem comum.
Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte activa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.”


CASTRO, P. João Baptista de (Lisboa, 1747), Mapa de Portugal, 3.ª Parte, pág. 57 e ss.
AMADO, F. França (Coimbra, 1911), Crónica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Álvares Pereira.
FREIRE, Pascoal José de Mello (Lisboa, 1810), “Dissertação Histórico-Jurídica sobre os Direitos e Jurisdição do Grão-Prior do Crato, e do seu Provisor”, Typographia Régia, pág. 48 e ss.
PAGARÁ, Ana, SILVA, Nuno Vassalo e, SERRÃO, Vítor, Igreja Vera Cruz de Marmelar, Câmara Municipal de Portel, pág.60.
Patriarcado de Lisboa, via Wikipédia.
Jornal Público

1 comentário:

João B. Fonte disse...

Aqui está um texto muito bem estruturado, redigido e difundido sobre Nuno Álvares Pereira. Peca, apenas por não desenvolver a biografia da Mulher D. Leonor de Alvim que nasceu na Reboreda, aldeia da Freguesia de Salto, do vizinho concelho de Montalegre. Ela casara mas nunca chegou a consumar-se o 1º casamento com Vasco Gonçalves Barroso. Ela era ainda uma criança que o marido morreu. Na altura os casamentos eram feitos em criança. Mas herdou Leonor de Alvim a grande fortuna do marido que veio a inspirar a Casa de Bragança. Ela casou em 2ªs núpcias com Nuno Álvares Pereira e fizeram da mansão de Pedraça uma espécie de sede política dessa época em Portugal. Parabéns . J.B. Fonte