terça-feira, 18 de setembro de 2012

Marcos de Malta em Ordem, Lousada


Deve o seu nome à existência de uma Comenda da Ordem dos Hospitalários. Guarda uma história riquíssima, ainda mal explorada, mas que pode ser participada, bastando que se calcorreie os quase desaparecidos caminhos, as veredas, as margens dos pequenos regatos, sempre na iminência da descoberta. Existe uma carta do Mosteiro de Pendorada, de doações a particulares, do mês de Maio do ano 770, que fala da fundação da Igreja de Santa Eulália, realizada depois da presúria (ocupação cristã, após retirada muçulmana deste território). Em 1216 a Igreja de Santa Eulália já se encontrava na posse da Ordem de Malta, em Leça do Balio, com a designação de "Santa Ovaya de Sousella", "Sousella de Caães" ou "Santa Olalha de Sousella". Como a Ordem tinha abundantes bens, cederam ao Bispo do Porto, D.Hugo, seis grandes casais, e ao prior de Leça, D. Martinho, e a seus sucessores, diversas igrejas, entre elas a de Santa Eulália, suprimindo ainda a obrigação do fornecimento de um jantar anual, que era incumbência do mosteiro. Segundo as Inquirições de D. Afonso III, de 16 de Maio de 1258, o Capelão Geraldo Pires informa que a igreja de "Sancte Ouaye de Sousa" era do "hospitalis" e que a Ordem a teve de testamento de D. Teresa Gonçalves, meia-irmã do Conde D. Mendo de Sousa. Em 1758, Pantaleão Machado Abreu e Silva, reitor da Igreja Paroquial de Santa Eulália da Ordem, pertencente à Religião de Malta, refere que a freguesia se situa na Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, termo e comarca da cidade do Porto, concelho de Aguiar de Sousa. Sendo que a freguesia tem como donatário o venerando Balio de Leça.
 
Por toda a freguesia podemos encontrar os marcos de pedra com a cruz da Ordem de Malta esculpida em baixo relevo, que serviram para delimitar a Comenda de Santa Eulália que aqui existiu. O primeiro Bispo de Mariana, D. Frei Manuel da Cruz, da ordem de Cister, nasceu aqui na já demolida Casa do Carvalhal. in wikipédia.

 
Entre 2005 e 2007, o Gabinete Arqueologia e Património da Câmara Municipal de Lousada, levou a cabo um trabalho de campo com vista à inventariação do conjunto de Marcos de propriedades que outrora pertenceram à Ordem de Malta, ao Arcediagado de Meinedo, ao Mosteiro de Bustelo e à Ordem de Cristo, naquele concelho do distrito do Porto (a que se reportam as imagens aqui publicadas).
Foi assim inventariado um conjunto de 19 Marcos da Ordem de Malta, de um total que se adivinha a rondar as três dezenas, cuja função foi a de fixação dos limites da Comenda, como era prática da Ordem, e de que já aqui trouxemos vários exemplos. Os Marcos existentes na freguesia de Ordem seguem a forma habitual de paralelepípedo com a cruz oitavada em hábito aberto em circulo. Aqui, contudo, uma particularidade: logo abaixo do hábito os marcos têm uma numeração e não a data de demarcação como era mais comum. Encontram-se também alguns marcos com forma triangular, como se pode observar pela imagem supra.
Com efeito, a Ordem de Malta foi aí detentora, pelo menos desde 1216, da Igreja de Santa Eulália, sendo que em 1258, de acordo com as Inquirições de D. Afonso III, era proprietária e foreira de várias terras e casais também noutras freguesias vizinhas, como Alvarenga, Covas, Cristelos, Figueiras, Sousela, Silvares e Pias. Mais tarde, a Ordem acabou por não conservar o direito de apresentação das igrejas de Sousela, Figueiras e Covas, tendo-se mesmo verificado a divisão entre a Comenda de Santa Eulália e a Igreja de Santa Eulália da Ordem, Covas, Figueiras e Sousela. Ainda assim, desde longo período de domínio da Ordem de Malta na área da actual freguesia de Santa Eulália da Ordem, bem como em diversas zonas do concelho de Lousada, sobretudo na bacia do rio Mezio, sobram diversos vestígios materiais, de que os Marcos de propriedade da referida Comenda serão, porventura, os mais notáveis (Cfr."Marcos de Propriedade no concelho de Lousada: notas para a sua significaçãohistórico-religiosa", OPPIDUM n.º 2, 2007, pág.42).

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Novo Site da Embaixada da Ordem de Malta


Está já disponível na internet o novo Sítio Oficial da Embaixada da Ordem Soberana e Militar de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, em Portugal (clicar sobre a imagem).
Tendo como Missão promover as virtudes cristãs, de caridade e fraternidade, exercendo, sem distinção de religião, raça, origem ou idade, obras de misericórdia relativamente aos doentes, pobres e refugiados, a Embaixada da Ordem de Malta em Portugal assegura a alta representação da Ordem no nosso país, acompanhando e incentivando ainda as instituições oficiais da Ordem, mormente a Assembleia dos Cavaleiros Portugueses que, com a sua acção, muito contribui para a concretização da sua Missão.
Pelos seus bons ofícios, bem-querer para com o legado da Ordem de Malta e amizade a Portugal, S.E. o Senhor Embaixador Dr. Miguel de Polignac de Barros, tem apoiado e incentivado também as acções e trabalhos que contribuem ou procuram contribuir para o bom nome e para a história da Ordem de Malta em Portugal. É o caso deste nosso humilde contributo que, de resto, tem merecido acompanhamento e oportunas sugestões de Sua Excelência, e cujo link teve a boa vontade de fazer acolher no novo Sítio Oficial da Embaixada, o que muito nos honra e responsabiliza.
 
A Chancelaria da Embaixada da Ordem de Malta em Portugal, tem a sua sede na Rua da Junqueira, n.º 136, desde 10 de Setembro de 2008, data em que S.E. o Senhor Dr. Miguel de Polignac de Barros apresentou as Cartas Credenciais a S.E. o Senhor Presidente da República Prof. Dr. Aníbal Cavaco Silva. É também neste local, desde então, a Residência Oficial do Embaixador.
Sua Excelência o Senhor Embaixador Dr. Miguel de Polignac Mascarenhas de Barros, nasceu em Paris, França, tendo Nacionalidade Francesa. Pertence à Associação Francesa dos Membros da Ordem de Malta e é formado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Foi Presidente e Administrador de várias Sociedades. Entrou para a Ordem como Primeiro Secretário da Embaixada da Ordem Soberana de Malta em 1980. Foi promovido a Conselheiro de Embaixada da Ordem Soberana de Malta em 1998.
Em 10 de Setembro de 2008, apresentou as Cartas Credenciais como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Ordem Soberana de Malta em Portugal a Sua Excelência o Senhor  Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva.
Em 09 de Dezembro de 2011, foi nomeado Representante Oficial da Ordem Soberana de Malta na C.P.L.P. – Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor-Leste), cargo que acumula com o de Embaixador em Portugal.
Dentre as suas condecorações, destaca-se a Grã Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, Grã Cruz de Honra e Devoção da Ordem Soberana de Malta, Grã Cruz da Ordem pro-Mérito Militensi, Grã Cruz de Justiça da Ordem Constantiniana de São Jorge, a de Grande Oficial da Ordem Internacional de Santo Huberto, a de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, a Medalha Cruz de São Jorge de 1ª Classe (CEMGFA), a Medalha Militar da Cruz Naval de 1ª Classe (CEMA), a Medalha Dom Afonso Henriques – Mérito do Exército de 1ª Classe, a Medalha de Mérito Aeronáutico de 1ª Classe, e a Medalha da A.N.H.T., Medalha de Ouro - Classe Dedicação - da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, o titulo de Grão Prior da Ordem Internacional de Santo Huberto para Portugal de 2002 a 2009 e de Cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro.

sábado, 8 de setembro de 2012

Visita ao Casal da Falagueira de Cima, Amadora



Hoje estivemos de visita ao Casal da Falagueira de Cima (Casa da Ordem de Malta) e Azenha, no concelho da Amadora. O que está escrito dá-nos a ideia do que foi uma determinada realidade ou acontecimento, mas, muitas vezes, nada melhor que ir ao local para sentir e perceber essa realidade ou acontecimento. Tudo ganha outra importância e significado. Tanto mais assim é neste caso, quando temos a ideia de que a Amadora não tem história nem elementos do passado que a possam valorizar. Sobre o que ainda era possível (embora nos pareça que era possível fazer algo mais relativamente à azenha e ao canal de condução de água até à mesma) foi ali feito um excelente trabalho arqueológico e de recuperação do Casal outrora pertença da Odem de Malta, de que subsistem alguns marcos (aqui, com a cruz em relevo, mas de pontas atenuadas) de que se guardam dois exemplares no interior do núcleo museológico e, para além doutros que existem pelas imediações, um outro que se preserva encostado à parede exterior do núcleo, que outrora foi a Casa principal do Casal, e apresenta traços da centúria de  quinhentos.
Uma das mais antigas referências ao Casal da Falagueira, encontra-se num testamento de 1268,  de um Cavaleiro da Ordem do Hospital, de seu nome Vasco Martins.
Segundo Frei Lucas de Santa Catarina, a propósito da Comenda de São Brás, em Lisboa, esta era ainda foreira de algumas propriedades para além do termo da cidade, nomeadamente na Falagueira: «... tem também a Ordem ainda hoje um casal, que está por cima do lugar da Falagueira, chamado de São Brás, com casas, pomar, vinhas, terras e fontes; foreiro em quatro moios e meio de trigo [aprox. 3510 litros/kg.], um moio de cevada [780 l./kg.], um carneiro e seis galinhas; havendo dele várias pertenças, e subenfiteuticações [sic], que rendem 240 reis, ou uma galinha, e outra 200 reis, ou outra galinha. (…) Mais se conserva foreira uma terra, com seu moinho de vento, no alto do Lugar da Falagueira, que se desmembrou do casal do Louro» (SANTA CATARINA, 1734: 269/277).

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alegoria à Ordem de Malta no espírito da Majestade
Pintura a óleo, de Francisco de Mura, 1747
Museum of Fine Arts, Valletta

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Visita à antiga Comenda de Montoito, Redondo




No passado fim-de-semana estivemos de visita à antiga e extinta Comenda de Montoito, no concelho de Redondo, distrito de Évora. Outrora anexa à Comenda de Elvas, trata-se de uma das comendas que a Ordem de Malta administrou mais a Sul do território português.
O topónimo Montoito, derivado de monte-outo, que deu Montouto e depois Montoito, parece advir de oito montes alentejanos, cujo trabalho e incremento agrícola deram origem ao agregado populacional que é agora o povoado.
O povoado terá sido fundado em 1270, com a outorga de Foral por Pero Anes e sua mulher, chegando a sede de concelho entre 1517, com a outorga de Foral Novo por D. Manuel I, em 25 de Outubro. Manteve a categoria de Vila e sede de concelho até ao início do século XIX. Pelo Decreto de 12 de Julho de 1895 a Vila foi anexada ao Concelho do Reguengos de Monsaraz, voltando para o de Redondo pelo Decreto de 13 de Janeiro de 1898.
Dentre o património edificado, assume maior destaque a igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, situada no extremo Sul da localidade, pegada ao cemitério. E a igreja do Espírito Santo que está no centro da povoação, destacando-se no frontispício da mesma a Cruz de Malta sobre a data de 1603. Há ainda tradição da existência de um hospício anexo com “a roda dos enjeitados”, dependente da Ordem de Malta que funcionava como Misericórdia, e que está perpetuado no nome da travessa onde existiu: Travessa do Hospital.
Muitos aspectos da história de Montoito e nomeadamente da presença da Ordem de Malta nesse território estão ainda por trabalhar e, por isso, muito salutar e profícuo seria certamente o estreitamento de relações entre a Junta de Freguesia de Montoito e as actuais estruturas representativas da Ordem de Malta em Portugal.
Entretanto, para além de outra documentação, chamamos a atenção para os seguintes documentos fundamentais para a história de Montoito e da Ordem de Malta, que podem ser consultados na Biblioteca Pública de Évora:

- Livro de Estabelecimentos da Ordem Militar de São João de Jerusalém (1575); com listagem dos Mestres da Ordem e cópias de documentos desde 1489.
- Traslado de diversos privilégios pontifícios concedidos à Ordem, solicitado por Fr. António Vaz da Cunha, Comendador de Távora e Aboim (1529).
- Livro de registo das provisões, ordens e matrículas dos privilegiados e mais papéis que se mandaram registar na província de Montoito da jurisdição de S. João de Jerusalém em Malta.
- Maço com documentação diversa relativa à Comenda de Montoito: testamentos, autos cíveis, citatórias, etc.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Visita ao Convento das Maltesas em Estremoz










No passado fim-de-semana estivemos de visita ao concelho de Estremoz e, nomeadamente, ao antigo e extinto Convento das Maltesas ou Convento de S. João da Penitência da Ordem de Malta. Foi extinto em 31 de Maio de 1878, por morte da última religiosa D. Ana Guilhermina da Purificação.
Actualmente, funcionam nas suas dependências a Misericórdia de Estremoz, proprietária do imóvel; no claustro, um Pólo da Universidade de Évora e, na ala sul, o Centro de Ciência Viva de Estremoz e um Museu interactivo e pedagógico dedicado exclusivamente à Geologia.
Marca característica e indissociável do edifício é, no entanto, a da sua génese. Foi, a partir do séc. XVI, um dos raros edifícios destinados à clausura de freiras da Ordem de Malta em Portugal. Testemunhos dessa realidade, encontramo-los ainda hoje um pouco por todo o Convento, cuja cruz oitavada de Malta se destaca no Portal de Entrada e nas portas de acesso dos Claustros aos principais espaços do edifício. Merecem igualmente destaque os frescos que decoravam, nomeadamente, as abóbodas dos Claustros, alusivos às preces das freiras maltesas, bem como o brasão das armas de Portugal sobre a cruz oitavada de Malta que se encontra no hall de entrada e que, há algum tempo, se encontram em processo de recuperação e preservação.
Foi com pena que verificamos alguma dissociação entre a história e a realidade actual do edifício, de tal forma que, não fossem os símbolos e testemunhos acima referidos, pouco se conseguiria aferir in loco sobre a importância histórica deste extinto Convento da Ordem de Malta, mormente para a história da própria Ordem. Os referidos símbolos e testemunhos, suscitam no visitante justificada curiosidade sobre a génese e história daquele edifício que, na nossa humilde opinião, deveria justificar relações estreitas entre a Misericórdia de Estremoz e as actuais estruturas representativas da Ordem de Malta em Portugal, no intuito de recuperar, salvaguardar e divulgar aspectos comuns da sua história e tradição.


O Inventário de extinção do Convento de São João da Penitência de Estremoz de Évora, guardado na Torre do Tombo (Cota actual: Ministério das Finanças, Convento de São João da Penitência de Estremoz de Évora, cx. 1928 e 1929), contém inventários de bens imóveis (prédios rústicos e urbanos) e dos bens móveis, descrição e avaliação do edifício do Convento e anexos, de alfaias, e mais objectos de culto e profanos, de foros, prazos, cartório (livros de autores nacionais e estrangeiros, hagiologia, de meditação, crónicas - seráfica, da Província do Algarve, entre outras -, "História da Ordem de Malta", de Anastácio de Figueiredo - 3 vol. -, "Flores del Carmelo", biografias de religiosas e religiosos, "Farmacopeia Tubalense", "Vida da Imperatriz Leonor Madalena Teresa", traduzida do alemão por João Leopoldo e Barão, um maço com papéis inúteis para vender a peso, e um saco com papéis de música de igreja, entre outros).
Integra a relação dos objectos do espólio que foram entregues ao depositário eclesiástico padre Joaquim Maria Ribeiro da Silva (1878), relação dos objectos preciosos e jóias, que foram entregues ao depositário João Nepomuceno dos Reis Varel, e a relação de objectos e livros para venda (1878).
Contém relações de foros, censos ou pensões correntes para venda, listas de arrematações (impressas), carta de sentença para título por dívida de foros relativa ao Moinho do Salgado (herdade do Pocinho), autos de avaliação de bens, autos cíveis de avaliação de um foro, da herdade da Valeja, da herdade do Monte Branco, relação de dívidas passivas, entre outros.
Compreende o livro da cópia do Inventário de São João da Penitência, da vila de Estremoz, 1878-1885, 198 fl.

Por Carta de Lei de 22 de Março de 1881, o edifício, igreja e cerca foram concedidos à Santa Casa da Misericórdia de Estremoz, para ali instalar o hospital civil e o Asilo da Infância Desvalida, denominado o Beatério. Inclui a cópia do auto de posse do edifício do Convento pela Misericórdia (1882).
A documentação menciona bens situados nos concelhos de Évora, Borba, Vila Viçosa, Elvas, Ponte de Sor, Alandroal, Sousel, Estremoz, entre outros.

domingo, 2 de setembro de 2012

Visita ao Mosteiro de Vera Cruz de Marmelar











Hoje, dia 02 de Setembro, visitamos a antiga Comenda de Vera Cruz de Marmelar, no concelho alentejano de Portel e, nomeadamente, o antiquíssimo Mosteiro Hospitalário que aí se localiza. Tivémos oportunidade de verificar o excelente estado de conservação interior do templo, bem como a elevada estima dos locais pelo património móvel existente nesta igreja, constituido por várias peças de pintura, escultura, ourivesaria, mobiliário e paramentaria, resultante de um universo rico e variado de objectos de uso litúrgico e devocional, herança da presença secular da Ordem dos Hospitalários.
A maior dedicação, no entanto, é reservada ao cofre-relicário medieval onde se guarda a relíquia do Santo Lenho.
Dentre as peças de pintura, destacam-se a pintura flamenga de Pentecostes e as pinturas que pertenceram ao antigo retábulo-mor da igreja, representando, a primeira, a Rainha Santa Helena e o milagre do Reconhecimento da Vera Cruz perante o Imperador Constantino e o seu séquito, obra do pintor bejense António de Oliveira (1548), encomendada pelo Comendador D. Diogo da Cunha, e a outra que, em 1671, conforme encomenda do Bailio Pedro Barriga barreto, veio substituir a anterior, com a representação do Milagre do Reconhecimento da Santa Cruz, da autoria do pintor eborense Francisco Nunes Varela. Merecem especial referência, a compor os alçados da nave da igreja, a série de pituras espanholas do século XVII, alusivas a beatos e freires-guerreiros da Ordem dos Hospitalários.
Verificamos também, não o podemos ignorar, a acentuada degradação da parte do imóvel que outrora constituiu a parte habitada do complexo religioso e que hoje está para além da igreja. Aquele estado de degração é resultado de várias décadas de abandono e, hoje, para além de não poder ser imputado a quem quer que seja, é de muito dificil e dispendiosa recuperação. No entanto, é parte importante do todo e merece ser limpo, protegido de maior delapidação e devidamente salvaguardado.


Vera Cruz de Marmelar é hoje uma das antigas Comendas da Ordem de Malta que mantém estreitas relações com as actuais estruturas representativas da Ordem em Portugal, com assinalável proveito para as actividades, nomeadamente, de carácter histórico e religioso de ambas as entidades.
Uma das actividades mais importantes para Vera Cruz e para o seu Mosteiro, é a Procissão Anual em Honra do Santo Lenho, que se realiza todos os anos, a 14 de Setembro (inalterável), após a Santa Missa. Convidámos, pois, a que aproveite esta próxima actividade para visitar o Mosteiro Hospitalário de Vera Cruz de Marmelar. Para além desta festividade, a visita está relativamente condicionada à hora em que se realiza a Missa Semanal, que neste período acontece aos Domingos, pelas 10h00. Entretanto, saiba mais sobre a Igreja de Vera Cruz de Marmelar aqui (link).

domingo, 15 de julho de 2012

Igreja e Colégio de São Lourenço, Porto

Comummente conhecida por Igreja dos Grilos, foi esta Igreja, bem como o Colégio anexo, iniciada pelos Jesuítas na segunda metade do século XVI, sendo que a primeira pedra foi lançada em 20 de Agosto de 1573. Contudo, a obra não teve um começo fácil e só em 1614, com o alto patrocínio do Bailio de Leça, Comendador Frei Luís Álvaro de Távora,  se ultimou a conclusão do templo e colégio anexo (que alberga hoje, numa das suas dependências, o Museu de Arte Sacra do Seminário Maior do Porto, fundado por D. Domingos de Pinho Brandão, bispo auxiliar da Diocese, natural de Rossas, Arouca).
Está o benemérito Comendador da Ordem de Malta sepultado na capela-mor desta Igreja, em túmulo de mármore suportado por elefantes, de composição semelhante aos túmulos régios do Mosteiro dos Jerónimos.
Referência histórica especial merece o facto do Brasão de Frei Luís Álvaro de Távora, patente no frontispício da Igreja, ter escapado à famigerada sentença do Processo dos Távoras, que levou a que se proibisse o apelido em Portugal, que os seus brasões fossem derribados e suas armas fossem picadas. Alegadamente, o facto de se encontrar muito alto, levou a que não se cumprisse ali tal sentença. Na extinta comenda de Rossas, no adro da Igreja Matriz, pode ainda hoje ser observado um exemplo de brasão picado.
Não se tendo cumprido tal sentença na Igreja dos Grilos, estão aí hoje patentes algumas marcas que evidenciam o patrocínio do benemérito Frei Luís de Távora e da Ordem de Malta à edificação daquele Templo e Colégio, na cidade do Porto.
Frontispício da Igreja e entrada lateral para o antigo Colégio
Parece-nos uma boa sujestão de visita, ali bem ao lado da Sé, que muitas vezes passa despercebida e oferece vários motivos de interesse, nomeadamente para maior conhecimento dos contributos da Ordem de Malta para o nosso património edificado.
Túmulo do benemérito Frei Luís Álvaro de Távora
 Brasão do benemérito Frei Luís Álvaro de Távora no frontispício da Igreja

sábado, 14 de julho de 2012

750 Anos do Foral dado pelo prior da Ordem do Hospital a Tolosa


Pinho Leal já nos tinha contado que Tolosa, actual freguesia do concelho de Nisa, localizada junto à ribeira de Sôr, teve foral dado pelo Grão-Prior do Crato, em 1262, com privilégios iguais aos de Évora, e que o original estava guardado na Torre do Tombo, Gav. 15, Maço 9, N.º18. Trata-se de um documento raro e valioso, de grande importância para a história de Tolosa, para a história do Priorado do Crato, em particular, e para a história da Ordem de Malta, em geral.
Apesar de muito menos documentados (e, por isso, de grande valor histórico) do que os de iniciativa régia, houve também concelhos instituídos ou reconhecidos por entidades que não a Coroa (bispos, mosteiros, ordens militares). O processo, contudo, tal como em grande número dos forais de iniciativa régia, visava incentivar o povoamento e a exploração agrícola.
Agora, no ano em que a respectiva junta de freguesia se junta às Comemorações dos 500 Anos do Foral concedido à vila de Nisa, comemorando os 750 Anos do seu próprio e primeiro Foral, é já possível ler online o conteúdo deste importante e principal documento, cuja outroga foi outrora um privilégio também da Soberana Ordem de Malta, relativamente às terras que administrou.
O documento em consulta, é uma cópia mandada fazer por ordem do Guarda-Mor da Torre do Tombo para melhor inteligência do original, que se encontra junto, e pode ser compulsado online na plataforma digitarq (link).
Posteriormente, em 1517, D. Manuel I outorga-lhe foral novo. Como vila e sede de concelho do priorado do Crato, em 1527, pertenciam ao rei as sisas e as terças, e a jurisdição e as rendas ao Infante. Foi este concelho extinto em 1836, data em que passou a integrar o concelho de Alpalhão. Com a extinção deste último, passou a integrar o concelho de Nisa e, posteriormente, em 1895, foi anexado ao concelho do Crato. Por Decreto de 13 de Janeiro de 1898 voltou, novamente, a ser integrado no concelho de Nisa, a que pertence actualmente.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Vila Marim comemora 700 Anos de História


A Junta de Freguesia de Vila Marim, antigo concelho e actual freguesia de Vila Real, comemora hoje, dia 09 de Julho, 700 Anos de História. É, porém, mais antiga a história de Vila Marim. Com alguma certeza, esclarecida que esteja a questão do ano em que foi concedido o primeiro foral, se pode fixar em 760 ou até mesmo em 787 anos.
Em qualquer caso e indissociável da história daquela simpática, aprazível e soalheira localidade, situada no extremo sudeste da Serra do Alvão, é a presença da Ordem dos Hospitalários, hoje dita de Malta. Remonta aos primórdios da nacionalidade a presença da Ordem dos Hospitalários também naquela zona transmontana e, nomeadamente, em Vila Marim, onde possuiu, de resto, a bela Torre de Quintela (Monumento Nacional, desde 1910), desde o século XIII até ao século XIX, mais precisamente até ao ano de 1834, data em que foram extintas as Ordens Religiosas em Portugal.
A Torre de Quintela, é um dos poucos exemplos de arquitectura civil-militar que comprovam a senhorialização por terras transmontanas. Terá sido mandada edificar no tempo de D. Afonso Henriques, por um seu companheiro de Armas. Trata-se de uma espécie de baluarte, equipada com acessórios defensivos, de planta quadrangular com cerca de 12 metros de largura, com o alçado a atingir mais de 20 metros de altura, organizado no seu interior por 4 pisos.
Por ter sido tão significativa a presença da Ordem de Malta em Vila Marim, figura hoje a Sua cruz oitavada, em chefe, no Brasão da Freguesia. A história de Vila Marim, no entanto, e em muitos dos seus aspectos, está ainda por fazer. Como já se referiu, da própria concessão do primeiro foral persiste ainda a dúvida se terá sido concedido a 9 de Julho de 1225, como nos informou a própria Junta de Freguesia, ou a 9 de Julho de 1252, como lemos em vários trabalhos.
Comprometemo-nos, por isso, a procurar esclarecer esta questão nos próximos dias, para benefício da história daquela localidade tão grata à Nossa Ordem de Malta.
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Hoje, 12.VII.2012, a Torre do Tombo (Arquivo Distrital de Vila Real) informou-nos o seguinte:
A freguesia de Vila Marim foi da apresentação do mosteiro dos Jerónimos de Belém.
Documentada desde 1072, era honra, pertencente a Mem Gueda, nos alvores da nacionalidade.
Recebeu foral de Dom Afonso III, a 9 de Julho de 1252.
Freguesia do concelho de Vila Real composta pelos lugares de Agarez, Arnal, Barelas, Galegos da Serra, Muas, Peneda, Quintela, Ramadas e Vila Marim.
A paróquia de Vila Marim pertence ao arciprestado e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922. O seu orago é Santa Marinha.

Instrumentos de pesquisa:
GONÇALVES, Manuel Silva; GUIMARÃES, Paulo Mesquita - Arquivo Distrital de Vila Real: Guia de Fundos. Vila Real: Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo. Arquivo Distrital de Vila Real, 1999. 2 vols. ISBN 972-9022-18-6. 2 vol.
Inventário ArqBase nível 4.0 (unidade de instalação).
PORTUGAL. Secretaria de Estado da Cultura. Inventário do Património Cultural Móvel - Inventário colectivo dos registos paroquiais / Inventário do Património Cultural Móvel, coord. José Mariz. - Lisboa : Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, 1993-1994. - 2 v. ; 26 cm. - (Arquivos).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

750 Anos da atribuição da primeira Carta de Foral e fundação do Castelo da Vila de Portel


Estão a decorrer, em Portel, as Comemorações dos 750 Anos da primeira Carta de Foral e fundação do Castelo daquela vila alentejana.
A efeméride é muito grata à Ordem de Malta que, de resto, integra a Comissão de Honra das Comemorações, pela pessoa de S.E. o Senhor Presidente da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem.
Portel, é uma das vilas portuguesas cuja própria história é indissociável da história da Ordem de Malta em Portugal. De resto, basta observar o Brasão de Armas do Concelho para constatar a importância da Ordem de Malta para aquela vila alentejana. Sentido pelo qual, quando uma vila que os Cavaleiros Hospitalários ajudaram a conquistar, a defender, a povoar e a administrar, reconhece esse legado e está em festa, também a Ordem de Malta tem razões para festejar e para se orgulhar dos seus contributos e da sua história.
Para saber um pouco mais sobre a presença e significado da Ordem de Malta no concelho de Portel, vale a pena compulsar o estudo abaixo, clicando sobre a imagem.

domingo, 1 de julho de 2012

Igreja de São João da Corujeira, em Elvas


A notícia da classificação pela UNESCO das Muralhas da Cidade de Elvas como Património Mundial, vem suscitar outra atenção sobre o património existente no perímetro daquelas fortificações, nomeadamente sobre a Igreja de São João da Corujeira, edificada no século XIII pelos Freires da Ordem de São João de Jerusalém (hoje dita de Malta), que aí estabeleceram a sede da respectiva Comenda, constituindo um contributo incontornável na história mais remota da defesa, povoamento e administração daquelas imediações fronteiriças. Um terramoto, porém, casou-lhe danos significativos, de que se recuperou entre o século XVIII e XIX, ao que se diz com dimensão mais reduzida.
Situa-se no alto da muralha leste da fortaleza, no bairro com o mesmo nome, no perímetro do Cemitério dos Ingleses ou Britânico de Elvas, e embora desperte atenção pelo seu campanário a encimar a frontaria, apresenta uma traça simples, porta de verga direita e duas janelas gradeadas com coruchéus e cruzes nas vergas. A notícia da edificação e presença dos Hospitalários, conserva-a num janelão aberto sobre o portal, guarnecido de marmore com pequeno frontão com duas volutas e a Cruz Oitavada de Malta sob a Cruz Latina.
Foto do descerramento da placa comemorativa da visita a Portugal de Fra Matthew Festing, Gão-Mestre da Ordem, em 2011

Depois de um período de abandono, a pequena mas significativa e histórica Igreja de São João da Corujeira está aberta ao público e consagrada ao Culto desde 24 de Junho de 2010, depois de recuperada pela Associação dos Amigos do Cemitério Britânico de Elvas, com o apoio da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta. De resto, as boas e profícuas relações destas duas entidades têm motivado a participação conjunta em diversas iniciativas, que muito têm valorizado a história da presença  de ambas naquela zona fronteiriça e Portugal.

sábado, 30 de junho de 2012

Igreja de Santa Luzia e São Brás, em Lisboa


A um ano de completar seis décadas desde a sua reinserção nas actividades de natureza espiritual da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta, a Igreja de Santa Luzia e São Brás, situada em miradouro sobranceiro ao típico bairro de Alfama, em Lisboa, beneficiou recentemente de algumas obras de recuperação e renovação exterior, que se encontram já concluídas.
Apesar de se tratar de um imóvel de traça simples, esta Igreja, para além de sede da Ilustre Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta, alberga um conjunto de sepulturas, distribuídas pela capela-mor, transepto e nave, patentes por meio de lápides e monumentos funerários, cujo conjunto mereceu a classificação como Monumento Nacional, por Decreto de 16.VI.1910.
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Post scriptum - No passado dia 4 de Julho, após a Missa Mensal, procedeu-se à inauguração de uma nova bandeira da Ordem no Terraço da Igreja de Santa Luzia e São Brás. Durante a Missa Mensal, os Membros da Ordem poderam ainda observar, pela primeira vez, os Quadros alusivos aos Quatro Grão-Mestres Portugueses, recentemente colocados no transepto da Igreja, junto às respectivas bandeiras heráldicas, por iniciativa do Ilustre Conselho, após empenhada diligência de S.E. o Senhor Vice-Presidente, Embaixador Manuel Côrte-Real.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Comemorações do dia do Santo Patrono São João Batista e Investidura de Novos Membros, em Lisboa e Sintra

No próximo dia 23 de Junho será comemorado o dia de São João Batista, Santo Patrono da Ordem Soberana Militar de Malta, com a habitual cerimónia de investiduras de novos membros da Assembleia Portuguesa.


As cerimónias terão o seu início às 16 horas com a celebração da Santa Missa no Mosteiro dos Jerónimos, presididas por S.E.R o Bispo de Portalegre-Castelo Branco, Dom Antonino Dias, Capelão Conventual “ad Honorem”, e concelebradas pelo S.E o Núncio Apostólico e alguns Capelães Magistrais, contarão ainda com a participação da nossa Confreira D.ª Conceição Seabra Galante como solista convidada e responsável pela coordenação do coro e preparação do repertório de música sacra.
 

Após as cerimónias religiosas haverá pelas 20h30m um jantar de gala no Palácio da Vila de Sintra, Largo Rainha Dona Amélia, que começará com um cocktail no Páteo da Gruta dos Banhos e um momento de Ópera, onde será interpretada uma seleção da Ópera “Il Trovatore” de Verdi, pelos solistas convidados Conceição Seabra Galante (Soprano Lírico), e Nuno Villalonga (Barítono), e com o Maestro Armando Vidal no piano. Seguir-se-á um jantar servido na Sala dos Cisnes que culminará com a actuação da fadista Maria Ana Bobone.
Ficará reservado, para os participantes neste evento, o parque de estacionamento fronteiro ao Palácio, policiado pela GNR.
Relembramos que estas comemorações estão abertas também à Família e Amigos dos Confrades sendo no entanto necessária a sua inscrição.

sábado, 26 de maio de 2012

Igreja de Santa Luzia e São Brás

No fim-de-semana em que a Igreja de Santa Luzia e S. Brás, em Alfama, Lisboa, sede da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Soberana Militar Ordem de Malta, se encontra em obras de conservação, partilhamos um pequeno apontamento sobre a mesma:

Situada num dos mais belos lugares da parte oriental de Lisboa, sobre o típico bairro de Alfama, a Igreja de Santa Luzia e S. Brás, da Ordem de Malta, sacrificou o seu adro e um antigo claustro para oferecer à cidade um dos seus mais agradáveis miradouros. Dentro das suas simples e modestas paredes guarda memória e testemunho de alguns aspectos de grande curiosidade e interesse. A tradição diz-nos que a Igreja, primeiramente dedicada a S. Brás, remonta aos primórdios da Nacionalidade, tendo sido edificada ainda no reinado de D. Afonso Henriques pelos Cavaleiros da Ordem do Hospital que, depois da prestimosa colaboração na conquista aos Mouros, em 1185, assumiram a partir daí a defesa da parte oriental da cidade, restituindo a Deus o Sagrado.

Há notícia de que o templo primitivo sofreu várias reconstruções. Já o actual, erguido sobre a edificação primitiva e sobre a muralha moura, é o resultado da reconstrução realizada após a destruição parcial causada pelo Grande Terramoto de Lisboa. O corpo principal da Igreja corresponderá ao existente antes de 1 de Novembro de 1755, cuja reconstrução se conformou com a localização da Igreja, mas, principalmente com a localização das várias sepulturas existentes no chão e incrustadas nas paredes. Se não antes, em 1870 estava já totalmente recuperada, como anotou João Baptista de Castro, no 3.º Volume do seu Mapa de Portugal Antigo e Moderno.

Antes do Terramoto era já, tal como hoje, pouco espaçosa e de uma só nave, de planta em cruz latina. Acompanhavam a capela-mor dois altares colaterais, que, por tão toscos, demonstravam grande antiguidade. No altar-mor estava colocada a Imagem de S. Brás, do lado esquerdo, e a de S. João Baptista, padroeiro da Ordem, do lado direito, obedecendo, de resto, a uma regra que temos verificado em muitas Igrejas fundadas e/ou administradas pela Ordem de Malta. Também do lado direito, mas no altar colateral estava a Imagem de Santa Luzia e, em frente, do lado esquerdo, a Imagem de Santa Águeda. Duas das Santas mais veneradas na antiguidade Cristã, ambas martirizadas durante as perseguições do Imperador Diocleciano. Santa Luzia é venerada como protectora da visão; e Santa Águeda, como protectora dos terramotos. Lembrámos, a propósito, que terão sido de pouca monta os danos causados em 1755. A todas estas imagens se dedicou altar pela tradição e experiência de milagrosas, preferindo-se, no entanto, Santa Luzia, que por tão solicitada, assumia já maior protagonismo que o próprio Orago na primeira metade do século XVIII. De resto, é hoje o nome pelo qual melhor se conhece a Igreja, cujas imediações se baptizaram como Largo de Santa Luzia.

Frei Lucas de Santa Catarina teve ainda oportunidade de observar, antes do Terramoto, que do lado da Epistola, se abria sem regularidade alguma um arco de uma pequena Capela, em que estava um nicho, que recolhia a Imagem de um Crucifixo, de bastante estatura e, possivelmente, da antiguidade da Igreja. A majestade do seu rosto piedoso e defunto, era tida como milagrosa. Segundo a tradição, terá falado a um Rei desta Coroa, que seria D. Afonso III, em melhor conjectura, pela devoção, que teve a esta Casa. Aí se encontrava ainda um cofre de estimáveis relíquias, trazidas de Roma pelo Bailio Frei Cristóvão de Cernache, que se encontra sepultado em Leça do Balio, primeira sede da Ordem em Portugal.

Se os aspectos referidos não nos dissessem já da antiguidade deste templo, outrora e durante algum tempo Cabeça do Priorado, bastavam-nos as cerca de dez sepulturas, distribuídas pela capela-mor (duas), transepto (cinco) e nave (três), patentes por meio de lápides e monumentos funerários, cujo conjunto, de resto, mereceu a classificação como Monumento Nacional, por Decreto de 16.VI.1910. A antiguidade delas e a importância de quem nelas se sepultou, diz-nos da antiguidade e significado do templo.
Para o lado do rio se vê a lápide de uma campa rasa e sem letreiro. A tradição diz que se trata do jazigo de um Grão-Mestre, o que, como esclareceu Fr. Lucas de Santa Catarina, nas suas Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta, datadas de 1734, e, portanto, anteriores ao Terramoto, é impossível, porque a todos aponta a História sepultura, não referido qualquer delas neste templo.
Para o lado do Castelo, no meio da parede da nave, se vê embutida uma grande pedra lisa, com um Escudo ao meio. Correm por baixo deste Escudo umas letras góticas, desfeitas e apagadas pelo tempo. Valeu-nos a diligência de um zelador, precavido para a efemeridade da inscrição, que a recuperou numa tábua, que fez pender na mesma parede, da qual constava o seguinte: Aqui jaz D. Fr. Lourenço Gil, Freire da Ordem do Hofpital, Commendador que foy defta Igreja de S. Braz de Lisboa; e foy filho de Gil Affonso, filho del-Rey D. Affonso, o pay del-Rey D. Diniz.

Na Capela-mor, da parte do Evangelho, se abre um arco, que recolhe um pequeno Mausoléu, com seu Epitáfio, sepultura do Grão Pior D. João de Sousa. No pavimento da mesma Capela se vê no meio uma grande lápide branca, em que está embutido um Escudo com suas Armas. Trata-se do jazigo do Comendador Fr. Martim Pereira d’Eça. Há notícia de também neste jazigo se ter sepultado igualmente o Grão Pior Manuel de Mello. Por baixo do Escudo de Armas consta um Epitáfio com os seguintes dizeres: Aqui jaz o Commendador Fr. Martim Pereira d’Eça, Recebedor, e Procurador Geral da Religião de Malta, de que foy professo. Faleceu em 12 de Abril de 1689.

Antes de 1755 existiam ainda algumas sepulturas fora da Igreja, junto à porta travessa, que abre para o lado do rio. A que assumia maior protagonismo, era uma de pedra, que o tempo se encarregou de gastar e carcomer, fazendo-a tosca. No alto dela estava um lintel da mesma pedra e da mesma antiguidade, denotando-se vestígios de um Escudo de Armas. Tal como havia sucedido com algumas das sepulturas existentes no interior, também desta se trasladou inscrição que nela existira, guardando-se memória numa pequena tábua, que se pendurou na parte de dentro da Igreja, onde estava em 1734 e na qual se podia ler o seguinte: Junto a efta porta jaz Fernão Affonso, Cavaleiro da Ordem do Templo, filho do muito illustre D. Affonso III, Rey de Portugal, e dos Algarves.
Como está bom de ver, o facto de aí se ter sepultado um Cavaleiro da Ordem do Templo, acabou por suscitar algumas dúvidas, até mesmo sobre a fundação e administração da Igreja. Havendo mesmo quem afirmasse que esta Igreja fora pertença da Ordem dos Templários em tempo mais remoto. Nada mais errado, como, de resto, esclareceu Fr. Lucas de Santa Catarina. Um contributo interessante, no entanto, para o esclarecimento das circunstâncias e do tempo em que se extinguiu a Ordem dos Templários, cujos professos indultados puderam ser socorridos pela Ordem dos Hospitalários.
Nas Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta se esclarece que em tempo de El-Rei D. Afonso III (1210-1279) era esta Igreja de São Brás Bailiado, porque com este título foi aí sepultado Gil Afonso (1250-1346), Cavaleiro Hospitalário, filho bastardo daquele Rei. Também filho bastardo deste Rei era o tal Fernão Afonso, sepultado do lado de fora da Igreja com o título de Cavaleiro do Templo. E nada mais apropriado. Terá sido socorrido pela Ordem dos Hospitalários, mas, atenta a sua qualidade e o facto de ter professado em Ordem diversa, apenas se lhe poderia reservar sepultura fora das paredes da sua Igreja. Também Anastácio de Figueiredo o anota e reitera a página 109 do Segundo Volume da sua Nova Malta.
Uma sepultura do dito Cavaleiro da Ordem do Templo nesta Casa ou junto a ela, justifica-se no facto de, já em tempo de El-Rei D. Afonso III, decorrerem as disputas e exames que acabariam por levar à extinção dos Templários no tempo de El-Rei D. Dinis. Como está bom de ver não haveria este de permitir que seu irmão, Fernão Afonso, fosse sepultado em Casa de sua Religião, por tão malquista ou mesmo já extinta. Assim, e em face do indulto concedido pelo Pontífice aos Cavaleiros inculpáveis pelas vicissitudes de que padeceram os Templários, autorizando-os a passar para os Hospitalários, se descortina razão bastante para que ali tivesse sido sepultado, junto a parentes de idêntica qualidade.
Até 1755 existia um pequeno alpendre sobre a porta principal da Igreja. Debaixo deste, existia uma outra sepultura em mármore e junto a ela uma grande vala do mesmo material. Segundo a tradição, esteve ali (porque em 1743 estava já vazia) o corpo de um Capitão de Mar e Guerra, que sem dúvida teria envergado o hábito de Malta (como usavam os Confrades) e seria pessoa de conta, pois se lhe permitiu ali tão publica e singular sepultura.

Uma Inquirição Régia de D. Afonso II, datada de 1220, permite-nos verificar que a Ordem dos Hospitalários era aquela que, então, detinha maior número de propriedades no termo e cidade de Lisboa, cuja sede de Comenda era a Igreja de Santa Luzia e São Brás, localizada intramuros, junto à Porta do Sol.

Extinta em 1834, como todas as Ordens Religiosas então existentes em Portugal, a Ordem volta a reorganizar-se em 1899 como Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta, com o propósito de dar continuidade à sua vocação hospitalária e assistencial. O que virá a desenvolver não só no território português, como também nos países africanos de lingua oficial portuguesa.

Em 1951, são estabelecidas relações diplomáticas entre a República Portuguesa e a Ordem Soberana Militar de Malta; e, em 21 de Junho de 1958, procede-se à reinserção da Igreja de Santa Luzia e São Brás, na vida corrente e nas actividades de natureza espiritual da Assembleia Portuguesa, onde se encontra sediada.
por A. J. Brandão de Pinho
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Bibliografia:

Ordem Soberana e Militar de Malta, ed. da O.S.M.M. de 1998.
FILERMO, Revista da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, volumes 7-8, Porto 1999.
FIGUEIREDO, Jozé Anastácio de, «Nova História da Militar Ordem de Malta, e dos Senhores Grão- Priores della em Portugal», Lisboa 1800.
CATARINA, Frei Lucas de Santa, «Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta», Lisboa 1734, parágrafo XCIII, pags. 269-277.
COSTA, Paula, «A ordem Militar do Hospital em Portugal: dos Finais da Idade média à Modernidade», in: Militarium Ordinum Anacleta, n.º ¾, ed. Fundação Eng. António de Almeida, Porto 1999/2000.
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=329
http://www.ordemdemalta.pt/quem-somos.html