sábado, 26 de maio de 2012

Igreja de Santa Luzia e São Brás

No fim-de-semana em que a Igreja de Santa Luzia e S. Brás, em Alfama, Lisboa, sede da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Soberana Militar Ordem de Malta, se encontra em obras de conservação, partilhamos um pequeno apontamento sobre a mesma:

Situada num dos mais belos lugares da parte oriental de Lisboa, sobre o típico bairro de Alfama, a Igreja de Santa Luzia e S. Brás, da Ordem de Malta, sacrificou o seu adro e um antigo claustro para oferecer à cidade um dos seus mais agradáveis miradouros. Dentro das suas simples e modestas paredes guarda memória e testemunho de alguns aspectos de grande curiosidade e interesse. A tradição diz-nos que a Igreja, primeiramente dedicada a S. Brás, remonta aos primórdios da Nacionalidade, tendo sido edificada ainda no reinado de D. Afonso Henriques pelos Cavaleiros da Ordem do Hospital que, depois da prestimosa colaboração na conquista aos Mouros, em 1185, assumiram a partir daí a defesa da parte oriental da cidade, restituindo a Deus o Sagrado.

Há notícia de que o templo primitivo sofreu várias reconstruções. Já o actual, erguido sobre a edificação primitiva e sobre a muralha moura, é o resultado da reconstrução realizada após a destruição parcial causada pelo Grande Terramoto de Lisboa. O corpo principal da Igreja corresponderá ao existente antes de 1 de Novembro de 1755, cuja reconstrução se conformou com a localização da Igreja, mas, principalmente com a localização das várias sepulturas existentes no chão e incrustadas nas paredes. Se não antes, em 1870 estava já totalmente recuperada, como anotou João Baptista de Castro, no 3.º Volume do seu Mapa de Portugal Antigo e Moderno.

Antes do Terramoto era já, tal como hoje, pouco espaçosa e de uma só nave, de planta em cruz latina. Acompanhavam a capela-mor dois altares colaterais, que, por tão toscos, demonstravam grande antiguidade. No altar-mor estava colocada a Imagem de S. Brás, do lado esquerdo, e a de S. João Baptista, padroeiro da Ordem, do lado direito, obedecendo, de resto, a uma regra que temos verificado em muitas Igrejas fundadas e/ou administradas pela Ordem de Malta. Também do lado direito, mas no altar colateral estava a Imagem de Santa Luzia e, em frente, do lado esquerdo, a Imagem de Santa Águeda. Duas das Santas mais veneradas na antiguidade Cristã, ambas martirizadas durante as perseguições do Imperador Diocleciano. Santa Luzia é venerada como protectora da visão; e Santa Águeda, como protectora dos terramotos. Lembrámos, a propósito, que terão sido de pouca monta os danos causados em 1755. A todas estas imagens se dedicou altar pela tradição e experiência de milagrosas, preferindo-se, no entanto, Santa Luzia, que por tão solicitada, assumia já maior protagonismo que o próprio Orago na primeira metade do século XVIII. De resto, é hoje o nome pelo qual melhor se conhece a Igreja, cujas imediações se baptizaram como Largo de Santa Luzia.

Frei Lucas de Santa Catarina teve ainda oportunidade de observar, antes do Terramoto, que do lado da Epistola, se abria sem regularidade alguma um arco de uma pequena Capela, em que estava um nicho, que recolhia a Imagem de um Crucifixo, de bastante estatura e, possivelmente, da antiguidade da Igreja. A majestade do seu rosto piedoso e defunto, era tida como milagrosa. Segundo a tradição, terá falado a um Rei desta Coroa, que seria D. Afonso III, em melhor conjectura, pela devoção, que teve a esta Casa. Aí se encontrava ainda um cofre de estimáveis relíquias, trazidas de Roma pelo Bailio Frei Cristóvão de Cernache, que se encontra sepultado em Leça do Balio, primeira sede da Ordem em Portugal.

Se os aspectos referidos não nos dissessem já da antiguidade deste templo, outrora e durante algum tempo Cabeça do Priorado, bastavam-nos as cerca de dez sepulturas, distribuídas pela capela-mor (duas), transepto (cinco) e nave (três), patentes por meio de lápides e monumentos funerários, cujo conjunto, de resto, mereceu a classificação como Monumento Nacional, por Decreto de 16.VI.1910. A antiguidade delas e a importância de quem nelas se sepultou, diz-nos da antiguidade e significado do templo.
Para o lado do rio se vê a lápide de uma campa rasa e sem letreiro. A tradição diz que se trata do jazigo de um Grão-Mestre, o que, como esclareceu Fr. Lucas de Santa Catarina, nas suas Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta, datadas de 1734, e, portanto, anteriores ao Terramoto, é impossível, porque a todos aponta a História sepultura, não referido qualquer delas neste templo.
Para o lado do Castelo, no meio da parede da nave, se vê embutida uma grande pedra lisa, com um Escudo ao meio. Correm por baixo deste Escudo umas letras góticas, desfeitas e apagadas pelo tempo. Valeu-nos a diligência de um zelador, precavido para a efemeridade da inscrição, que a recuperou numa tábua, que fez pender na mesma parede, da qual constava o seguinte: Aqui jaz D. Fr. Lourenço Gil, Freire da Ordem do Hofpital, Commendador que foy defta Igreja de S. Braz de Lisboa; e foy filho de Gil Affonso, filho del-Rey D. Affonso, o pay del-Rey D. Diniz.

Na Capela-mor, da parte do Evangelho, se abre um arco, que recolhe um pequeno Mausoléu, com seu Epitáfio, sepultura do Grão Pior D. João de Sousa. No pavimento da mesma Capela se vê no meio uma grande lápide branca, em que está embutido um Escudo com suas Armas. Trata-se do jazigo do Comendador Fr. Martim Pereira d’Eça. Há notícia de também neste jazigo se ter sepultado igualmente o Grão Pior Manuel de Mello. Por baixo do Escudo de Armas consta um Epitáfio com os seguintes dizeres: Aqui jaz o Commendador Fr. Martim Pereira d’Eça, Recebedor, e Procurador Geral da Religião de Malta, de que foy professo. Faleceu em 12 de Abril de 1689.

Antes de 1755 existiam ainda algumas sepulturas fora da Igreja, junto à porta travessa, que abre para o lado do rio. A que assumia maior protagonismo, era uma de pedra, que o tempo se encarregou de gastar e carcomer, fazendo-a tosca. No alto dela estava um lintel da mesma pedra e da mesma antiguidade, denotando-se vestígios de um Escudo de Armas. Tal como havia sucedido com algumas das sepulturas existentes no interior, também desta se trasladou inscrição que nela existira, guardando-se memória numa pequena tábua, que se pendurou na parte de dentro da Igreja, onde estava em 1734 e na qual se podia ler o seguinte: Junto a efta porta jaz Fernão Affonso, Cavaleiro da Ordem do Templo, filho do muito illustre D. Affonso III, Rey de Portugal, e dos Algarves.
Como está bom de ver, o facto de aí se ter sepultado um Cavaleiro da Ordem do Templo, acabou por suscitar algumas dúvidas, até mesmo sobre a fundação e administração da Igreja. Havendo mesmo quem afirmasse que esta Igreja fora pertença da Ordem dos Templários em tempo mais remoto. Nada mais errado, como, de resto, esclareceu Fr. Lucas de Santa Catarina. Um contributo interessante, no entanto, para o esclarecimento das circunstâncias e do tempo em que se extinguiu a Ordem dos Templários, cujos professos indultados puderam ser socorridos pela Ordem dos Hospitalários.
Nas Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta se esclarece que em tempo de El-Rei D. Afonso III (1210-1279) era esta Igreja de São Brás Bailiado, porque com este título foi aí sepultado Gil Afonso (1250-1346), Cavaleiro Hospitalário, filho bastardo daquele Rei. Também filho bastardo deste Rei era o tal Fernão Afonso, sepultado do lado de fora da Igreja com o título de Cavaleiro do Templo. E nada mais apropriado. Terá sido socorrido pela Ordem dos Hospitalários, mas, atenta a sua qualidade e o facto de ter professado em Ordem diversa, apenas se lhe poderia reservar sepultura fora das paredes da sua Igreja. Também Anastácio de Figueiredo o anota e reitera a página 109 do Segundo Volume da sua Nova Malta.
Uma sepultura do dito Cavaleiro da Ordem do Templo nesta Casa ou junto a ela, justifica-se no facto de, já em tempo de El-Rei D. Afonso III, decorrerem as disputas e exames que acabariam por levar à extinção dos Templários no tempo de El-Rei D. Dinis. Como está bom de ver não haveria este de permitir que seu irmão, Fernão Afonso, fosse sepultado em Casa de sua Religião, por tão malquista ou mesmo já extinta. Assim, e em face do indulto concedido pelo Pontífice aos Cavaleiros inculpáveis pelas vicissitudes de que padeceram os Templários, autorizando-os a passar para os Hospitalários, se descortina razão bastante para que ali tivesse sido sepultado, junto a parentes de idêntica qualidade.
Até 1755 existia um pequeno alpendre sobre a porta principal da Igreja. Debaixo deste, existia uma outra sepultura em mármore e junto a ela uma grande vala do mesmo material. Segundo a tradição, esteve ali (porque em 1743 estava já vazia) o corpo de um Capitão de Mar e Guerra, que sem dúvida teria envergado o hábito de Malta (como usavam os Confrades) e seria pessoa de conta, pois se lhe permitiu ali tão publica e singular sepultura.

Uma Inquirição Régia de D. Afonso II, datada de 1220, permite-nos verificar que a Ordem dos Hospitalários era aquela que, então, detinha maior número de propriedades no termo e cidade de Lisboa, cuja sede de Comenda era a Igreja de Santa Luzia e São Brás, localizada intramuros, junto à Porta do Sol.

Extinta em 1834, como todas as Ordens Religiosas então existentes em Portugal, a Ordem volta a reorganizar-se em 1899 como Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta, com o propósito de dar continuidade à sua vocação hospitalária e assistencial. O que virá a desenvolver não só no território português, como também nos países africanos de lingua oficial portuguesa.

Em 1951, são estabelecidas relações diplomáticas entre a República Portuguesa e a Ordem Soberana Militar de Malta; e, em 21 de Junho de 1958, procede-se à reinserção da Igreja de Santa Luzia e São Brás, na vida corrente e nas actividades de natureza espiritual da Assembleia Portuguesa, onde se encontra sediada.
por A. J. Brandão de Pinho
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Bibliografia:

Ordem Soberana e Militar de Malta, ed. da O.S.M.M. de 1998.
FILERMO, Revista da Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana e Militar de Malta, volumes 7-8, Porto 1999.
FIGUEIREDO, Jozé Anastácio de, «Nova História da Militar Ordem de Malta, e dos Senhores Grão- Priores della em Portugal», Lisboa 1800.
CATARINA, Frei Lucas de Santa, «Memórias da Ordem Militar de S. João de Malta», Lisboa 1734, parágrafo XCIII, pags. 269-277.
COSTA, Paula, «A ordem Militar do Hospital em Portugal: dos Finais da Idade média à Modernidade», in: Militarium Ordinum Anacleta, n.º ¾, ed. Fundação Eng. António de Almeida, Porto 1999/2000.
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=329
http://www.ordemdemalta.pt/quem-somos.html

3 comentários:

José Silva disse...

Boa tarde, chamo-me José Silva e sou arqueólogo de profissão. Sempre me suscitou grande interesse a historia de Lisboa.
Queria perguntar uma coisa, vejo que esta igreja teve obras de conservação recentemente. Foi feita alguma sondagem no pavimento? Se sim qual a profundidade que chegaram?
Pergunto isto, pois há referencia escritas que esta Igreja, aquando a entrada dos cristão de D. Afonso em Lisboa, foi cedida á ordem de São Braz.
No entanto existe documentação mais tardia, e algumas teoria de arqueólogos da nossa praça, de que antes de ser Igreja de São Braz possa ter sido a mesquita principal da cidade de Lisboa.
Eu também concordo com essa teoria, pois o local onde está inserida é de boa visibilidade para a cidade, afim de qualquer cidadão islâmico poder observar e ouvir as orações proferidas no minarete. Também outro facto é de esta igreja se localizar junto á muralha, o que comparando com a cidade ideal islâmica se confirma.

Tenho um projecto de tentar localizar a Mesquita, pois foi um marco importantíssimo para a cidade de Lisboa.

Esta igreja pertence ao patriarcado de Lisboa ou exclusivamente á Ordem de Malta? Obrigado

brandaopinho@gmail.com disse...

Caro José Silva,

Agradecemos o seu comentário e partilhamos o seu interesse.

Relativamente às questões que coloca, informamos que não se procedeu a qualquer sondagem no pavimento, aquando da mais recente intervenção que, entre outros melhoramentos, se circunscreveu a restauro e pintura de fachadas.
É possível que esta Igreja, primeiramente dedicada a São Brás e, só mais tarde, também a Santa Luzia, tenha sido precedida de uma Mesquita e, possivelmente, da Mesquita principal da então cidade de Lisboa. Contudo, é uma possibilidade de tese, que só uma sondagem e algum trabalho arqueológico poderão confirmar.
A Igreja de São Brás e Santa Luzia, antiga cabeça da Comenda de São Brás, foi cedida à Assembleia dos Cavaleiros Portugueses da Ordem Soberana Militar de Malta em 1958, que aí estabeleceu a sua sede nacional e desenvolve actividades de natureza cultural e espiritual.

Com os nossos cumprimentos,

Carla Branco disse...

Boa tarde. Visitei a Igreja recentemente e fiquei encantada. Lá, fui informada que a imagem de Santa Luzia que se encontra no lado esquerdo do altar é obra de Aleijadinho. Não encontrei nenhuma referência a isso no blog e gostaria de confirmar a informação.
Desde já agradeço a atenção.